Alysson L. Freitas Doutor em História Social pela USP. Professor Titular da Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes. Foto: arquivo pessoal
Existem dois tipos de cidadão brasileiro que acredita mesmo que as eleições e urnas eletrônicas no Brasil são (ou foram) fraudadas, e um tipo que jamais acreditou nisso. Vou te apresentar os três. Veja se você conhece um deles:
- A primazia da nossa lista fica com o cidadão que realmente acreditou nisso ao longo dos últimos anos. Ele recebeu pelo wpp, por quase 3 anos ininterruptos, informações de que as urnas alteravam votos, que ninguém deixava auditar as urnas e que fatalmente Jair Bolsonaro só poderia perder para presidente porque alguém roubaria dele. Virou um especialista na palavra “código-fonte”, mesmo sem saber explicar… “era só um código, que tinha uma fonte… é isso aí!” Esse brasileiro tinha certeza que o Jair ganharia em 2022, afinal, ele participou de uma votação de um programa na Jovem Pan e lá estava dando mais de 80% dos votos para o Jair. Ora, como pode? Esse cidadão tinha certeza, genuína, absoluta, que estavam tomando a eleição do Mito na mão grande. Nos últimos meses de 2022 foi para a porta dos quartéis, e o resto você já sabe. Por incrível que pareça, é o mais honesto dessa lista de hoje.
- O segundo é o brasileiro que acreditou por conveniência. No seu íntimo e no pouco que ainda lhe restava de sensatez, sabia que isso era uma conversa de perdedor, mas não tinha como assumir essa posição. Teve que “engolir” o fato, e sempre aparecia com a frase “poderia ter um comprovante do nosso voto né?! Daria mais transparência para a eleição… qual o problema de uma maior transparência?” Repetiu a palavra transparência como um mantra. Esse já é o semi-eleitor da família Bolsonaro. Aceita o caos até determinado ponto. Se apresenta como sensato, inteligente, culto, mas é obrigado a não abandonar algumas conveniências. É o Jair de sapatênis. Você conhece vários, inclusive estão até na imprensa brasileira, que volta e meia ajudaram a consolidar essa visão.
Não sei definir qual é o eleitor mais perigoso desses dois aí de cima, mas com certeza o primeiro reza para pneu e bebe detergente (e isso quem falou foi um senador de direita, ok?) e o segundo confia que exista um “Flávio moderado… que vai equilibrar as contas públicas nacionais e salvar o Brasil”. A questão é que os dois votam, dentro de um sistema democrático livre. Somados, vimos dia 4 de outubro, são 60 milhões.
Ah… e o terceiro?!
- O terceiro é o que nunca acreditou nisso. Nunca perdeu uma noite de sono imaginando que existia fraude eleitoral no país ou que as eleições eram uma farsa. O terceiro só te usou mesmo! O terceiro fez de você (e faz ainda) uma massa de manobra. O terceiro trata você como um imbecil que “bebe detergente e faz oração para alienígena”. O terceiro te considera pequeno, raso e incapaz de pensar. O terceiro sabe que você cai no que for necessário e em qualquer terror que interessa dentro do jogo de pânico moral. Ah, e a lista é grande para ser explorada: mamadeira de p*, banheiro para trans, liberdade feminina como atraso social, Anvisa que ataca o dono da Ipê por ele ser de direita, cloroquina para combater covid, urnas fraudadas, AMIGUES DOMINANDE A UNIVERSIDADE QUE TEM MACONHE PRA TODES OS LADES…
Enfim, a lista é grande!
O terceiro é o seu político de estimação. Nunca acreditou em nada disso. Mas acredita, fielmente, que você vai acreditar!