Foto: Divulgação/Sebrae Minas
Em Salinas, no Norte de Minas, as irmãs Daniele Sarmento e Leila Dayse Sarmento encontraram na tradição da família a inspiração para renovar a produção de cachaças. Filhas de Antônio Sarmento, conhecido como “Seu Tonico”, elas assumiram a gestão do negócio e deram continuidade a um trabalho iniciado pelo pai há mais de três décadas.
A história da nova geração ganhou destaque em 2021, quando as irmãs participaram da Expocachaça e conquistaram a premiação Duplo Ouro. O objetivo inicial era homenagear os 30 anos da Cachaça Salineira, criada em 1989 pelo pai e conhecida pelo envelhecimento em dornas de bálsamo.
Desde crianças, Daniele e Leila acompanhavam a rotina dos canaviais e do alambique. Para marcar a história da família, elas reuniram parte do estoque produzido pelo pai e criaram uma edição comemorativa de apenas mil garrafas.
“Nossa história à frente da cachaçaria começou com essa homenagem. Reunimos o que estava no estoque e levamos ao concurso. Sempre víamos este potencial de mercado das cachaças do nosso pai”, explica Daniele.
Sucessão familiar
A mudança na gestão começou em 2019, quando Seu Tonico precisou se afastar para cuidar da saúde. Daniele passou gradualmente a assumir a administração da empresa e as decisões comerciais. Depois da premiação de 2021, Leila, que trabalhava no setor bancário, também entrou definitivamente no negócio da família.
Com o reconhecimento obtido nos concursos, as irmãs iniciaram um processo de reposicionamento da marca. A estratégia envolveu a renovação da identidade visual, o lançamento de novos produtos e a participação em concursos nacionais, sem abandonar as características artesanais da produção.
“Embarquei no projeto e vi a oportunidade de reformar a fazenda, retomar a produção apostando em novos plantios de canavial e reorganizando o sistema de irrigação”, conta Leila.
Em 2023, a nova geração realizou a primeira produção totalmente conduzida pelas irmãs, mantendo práticas tradicionais, como a colheita manual da cana e a fermentação natural.
A primeira carga chegou ao mercado em 2024 e foi recebida positivamente pelos consumidores. Segundo Daniele, havia expectativa pela retomada da produção da Salineira.
“A primeira produção, marcando a continuidade do legado, foi muito bem recebida pelo mercado. Ficamos tão confiantes que já entrou no planejamento a possibilidade de exportação”, afirma.
Novos produtos e premiações
Além da Salineira, as irmãs passaram a investir na marca Valiosa, ampliando o portfólio da empresa. Atualmente, a linha conta com uma versão branca, um blend envelhecido em duas madeiras e uma edição em carvalho.
A identidade dos produtos também busca valorizar a origem da bebida. O rótulo da Valiosa traz o mapa de Salinas e indica a localização da fazenda onde a produção é realizada.
A empresa produz atualmente cerca de 15 mil litros de cachaça por ano, mantendo uma escala artesanal.
O reconhecimento em concursos também continuou. A Valiosa Clássica, versão branca lançada pela nova gestão, conquistou medalhas na New Spirits em 2025 e 2026. A Salineira também voltou a ser premiada, recebendo medalha de Ouro pelos 35 anos da marca. A edição comemorativa retrô também conquistou reconhecimento.
Ao todo, diferentes rótulos da família já acumulam sete medalhas nacionais.
Para Leila, os prêmios representam a continuidade do trabalho iniciado pelo pai.
“A qualidade não está apenas nas cachaças novas. Está em todas as edições. É um produto que carrega um legado”, destaca.
Aos 87 anos, Seu Tonico acompanha a trajetória das filhas e demonstra orgulho pela continuidade do negócio.
“Fiquei satisfeito em ver elas seguirem o plano que eu construí. Está sendo muito bom”, afirma.
Salinas é referência na produção de cachaça
A história das irmãs faz parte de uma tradição maior de Salinas, considerado um dos principais territórios produtores de cachaça do Brasil. O município produz cerca de 5 milhões de litros da bebida por ano, movimentando aproximadamente R$ 70 milhões na economia local.
A cadeia produtiva envolve pequenos alambiques, agricultores, cooperativas, comércio, turismo e gastronomia.
A identidade da região também é reconhecida oficialmente. Em 2012, a Região de Salinas conquistou a Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O reconhecimento indica a relação entre a reputação e a qualidade da cachaça e o território onde ela é produzida, contribuindo para valorizar a origem e agregar valor aos produtores locais.
Para fortalecer os negócios, produtores da região também recebem apoio e consultorias do Sebrae Minas, por meio de iniciativas como o ALI Rural e trilhas de desenvolvimento oferecidas em parceria com a Associação de Produtores Artesanais de Cachaça (Apacs).
A trajetória de Daniele e Leila mostra como a sucessão familiar pode unir tradição, inovação e valorização do território, mantendo vivo um legado construído ao longo de décadas.