Foto: Larissa Durães
O fenômeno El Niño deve atingir seu período de maior intensidade entre outubro e dezembro de 2026, trazendo para o Norte de Minas um cenário marcado por temperaturas acima da média e chuvas abaixo da normalidade. As projeções foram apresentadas durante uma reunião técnica realizada nesta terça-feira (25), em Montes Claros, pela Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (CEDEC), em parceria com a Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (AMAMS).
Segundo o meteorologista Romero Thiago Sobrinho Wanzeler, do Centro de Inteligência e Defesa Civil da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDEC), as temperaturas no Norte de Minas podem ficar entre 1°C e 2°C acima da média durante o período de maior atuação do fenômeno. A tendência é de enfraquecimento do El Niño a partir do trimestre de março, abril e maio de 2027.
“A gente pode colocar como características principais da atuação do fenômeno aqui no Norte de Minas a questão das temperaturas acima da média, variando em torno de 1 a 2 graus pra cima, principalmente durante o trimestre de outubro, novembro e dezembro”, explicou Wanzeler.
Além do calor, a previsão indica redução das chuvas na região. O meteorologista alerta, porém, que a menor quantidade de chuva não significa ausência de eventos extremos, já que algumas precipitações podem ocorrer de forma intensa e concentrada em períodos curtos.
“Essas chuvas, embora sejam menos volumosas, podem ocorrer dentro de intervalos curtos de tempo, os famosos temporais e aquelas tempestades que preocupam qualquer região, mas que são uma preocupação a mais aqui no Norte de Minas”, afirmou.
Defesa Civil alerta para seca mais severa
Diante desse cenário, a principal preocupação da Defesa Civil para o Norte de Minas é a possibilidade de uma estiagem mais prolongada e severa.

Segundo o subtenente Cleonildo Menezes, agente regional e estadual de Defesa Civil e responsável pela coordenação dos 77 municípios do Norte de Minas, os municípios já receberam orientações para se prepararem para os possíveis impactos do fenômeno.
“O que pode acontecer aqui no Norte de Minas é uma seca, uma seca mais severa. Em decorrência disso, a Defesa Civil Estadual já tem preparado e disponibilizado todo o aparato para dar o suporte necessário a todos os municípios”, explicou Menezes.
Em caso de emergência, os municípios podem solicitar apoio estadual, incluindo fornecimento de água, cestas básicas e kits de higiene e limpeza, conforme a necessidade de cada localidade.
Uma das ações já em andamento é o programa Convivência com a Seca, voltado a municípios que apresentaram o Plano Municipal de Distribuição de Água Potável. Cerca de 45 municípios do Norte de Minas já foram contemplados com caixas d’água de 16 mil litros para captação de água da chuva. O programa está atualmente na terceira fase de instalação.
Municípios já enfrentam dificuldades
A realidade de algumas cidades mostra os efeitos da estiagem antes mesmo do período de maior intensidade do El Niño.

Em Capelinha no Vale do Jequitinhonha, o período de seca normalmente se estende do final de maio até novembro. Segundo Felipe Spencer, coordenador da Defesa Civil Municipal (COMPDEC), a expectativa é de que o fenômeno prolongue ainda mais a estiagem e atrase o início do período chuvoso.
Atualmente, o município atende cerca de 100 famílias da zona rural com fornecimento de água potável. A estrutura disponível, no entanto, enfrenta limitações para atender uma eventual ampliação da demanda.
“Hoje a gente atende cerca de 100 famílias que necessitam cotidianamente de água e infelizmente essa tendência é aumentar”, afirmou Felipe Spencer.
Em Manga, a situação também preocupa. O prefeito Anastácio Guedes Saraiva relatou dificuldades de abastecimento em comunidades rurais do município, que possui 52 comunidades e uma extensa área territorial. Segundo ele, rios e estruturas de armazenamento de água estão secos, afetando moradores, produtores e animais.
“Esse momento é um momento muito crítico, o município é um município muito grande, com 52 comunidades rurais, e a gente sofre muito com a falta d’água nas comunidades rurais”, afirmou Saraiva.
Agricultura também deve sentir os efeitos
O setor agropecuário está entre os mais vulneráveis às alterações no regime de chuvas e à redução da umidade do solo.
O secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa), Thales Almeida Pereira Fernandes, destacou a necessidade de atenção dos produtores, principalmente para definir o momento adequado de plantio.
“O produtor tem que estar acompanhando isso minuciosamente para não perder o plantio, não adiantar o plantio, não perder aquele momento exato, aquela janela em que ele pode plantar e ter a sua colheita garantida”, afirmou Thales.
Entre as medidas adotadas pelo Estado está o incentivo à agricultura irrigada sustentável, com políticas voltadas à retenção de água e à irrigação dos cultivos. A Seapa também atua em parceria com a Emater-MG na orientação e assistência técnica aos produtores.
Outra iniciativa é o Garantia-Safra, programa que atende pequenos agricultores sujeitos a perdas provocadas por estiagem ou veranicos. Segundo Thales, cerca de 40 mil produtores estão incluídos no programa.
“A prevenção é tudo. Se a gente consegue preparar um episódio que pode chegar, a gente consegue mitigar os riscos”, destacou o secretário.
Saúde também exige atenção
As condições de calor intenso e baixa umidade também podem aumentar os riscos à saúde. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) alerta para problemas respiratórios e cardiovasculares, principalmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
O subsecretário de Vigilância em Saúde da SES-MG, Eduardo Prosdocimi, também chamou atenção para as arboviroses. Apesar de o Estado registrar redução de aproximadamente 50% nos casos em relação ao ano anterior, algumas localidades da região de Montes Claros apresentaram aumento recente.
Segundo ele, grande parte dos focos está dentro das próprias residências, reforçando a necessidade de participação da população no combate aos criadouros.
Montes Claros reforça prevenção
Em Montes Claros, a Defesa Civil intensificou as ações preventivas diante da possibilidade de eventos climáticos extremos. Entre as medidas estão a limpeza de bueiros, retirada de resíduos, desassoreamento do Córrego das Melancias e monitoramento de áreas de risco.
O secretário municipal de Defesa Civil, Anderson Chaves, informou que mais de 80 toneladas de resíduos sólidos já foram retiradas dos bairros.
“A Defesa Civil de Montes Claros tem adotado as medidas preventivas desde o início do ano, com ações em conjunto com as demais secretarias, como limpeza de bueiros e retirada de resíduos sólidos dos bairros”, afirmou Anderson Chaves.
O município também realiza o mapeamento de áreas de risco em conjunto com o Corpo de Bombeiros, incluindo a Vila São Francisco e o Córrego das Melancias. Além disso, há previsão de mais de R$ 80 milhões em investimentos em obras de drenagem.
A Defesa Civil orienta os moradores a manterem calhas limpas, verificarem árvores que possam oferecer risco e evitarem o descarte irregular de lixo. Também recomenda o cadastro do CEP pelo número 40199 para receber alertas de emergência no celular. Em situações de risco, os contatos são 199, da Defesa Civil, e 193, do Corpo de Bombeiros.
Infraestrutura hídrica é apontada como solução de longo prazo
Além das medidas emergenciais, a Defesa Civil defende investimentos em grandes obras para enfrentar estruturalmente a escassez de água no Norte de Minas. Entre os projetos citados estão as barragens de Congonhas e Jequitaí.
“O que nós precisamos mesmo é de uma força política para que esses benefícios e esses recursos possam chegar aqui na nossa região”, afirmou Cleonildo Menezes.
Para o agente da Defesa Civil, a mobilização política é necessária para garantir investimentos capazes de ampliar a segurança hídrica da região.
Apesar dos alertas, o meteorologista Romero Thiago Sobrinho Wanzeler reforça que o El Niño é um fenômeno natural e que seus efeitos variam conforme a região. Segundo ele, o acompanhamento das previsões permite antecipar possíveis impactos e adotar medidas de prevenção.
“A gente não pode pensar muito na questão do alarmismo. O El Niño é um fenômeno natural e os impactos ocorrem de uma maneira diferente em cada região”, finalizou.