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A sensação de não ser ouvido ou representado contribui para o aumento do estresse psicológico e da desconfiança nas instituições

 

 

A política, deveria ser o espaço destinado à construção do bem comum, da justiça social e à busca de condições que permitam uma vida digna para todos os cidadãos. No entanto, a realidade contemporânea parece apontar para uma transformação significativa desse ideal. Cada vez mais, a política deixa de ser um instrumento de representação das necessidades coletivas para assumir uma função predominantemente administrativa, voltada à manutenção de interesses econômicos e à preservação de estruturas de poder. Nesse processo, não apenas a democracia é afetada, mas também a saúde mental da população, que sofre as consequências de políticas marcadas pelo individualismo, pela desigualdade e pelo distanciamento entre governantes e governados.

Em vez de serem guiados por projetos de transformação social ou por ideais voltados ao desenvolvimento humano, muitos agentes políticos passam a atuar como gestores de interesses econômicos. A percepção popular de que decisões são frequentemente influenciadas por grupos que financiam campanhas ou exercem grande poder econômico reforça a ideia de que a política deixou de servir ao cidadão comum. O foco já não está na construção de uma sociedade mais justa, mas na manutenção de uma máquina que prioriza a circulação de riqueza e a estabilidade dos mercados.

Nesse contexto, o político deixa de ser visto como um líder comprometido com uma visão de futuro e transforma-se em uma figura pública cuja imagem é constantemente consumida. Como as diferenças entre projetos políticos parecem cada vez menores em questões estruturais, o debate se desloca para aspectos pessoais. As redes sociais, as polêmicas, os discursos de impacto e até mesmo a vida privada dos representantes tornam-se mais relevantes do que suas propostas concretas. A política converte-se em espetáculo, e o cidadão passa a ocupar a posição de espectador.

Essa transformação produz efeitos importantes na subjetividade das pessoas. Quando a população percebe que possui pouca influência sobre decisões que afetam diretamente sua vida, surgem sentimentos de impotência, descrença e desesperança. A sensação de não ser ouvido ou representado contribui para o aumento do estresse psicológico e da desconfiança nas instituições. A participação política deixa de ser vista como uma ferramenta de mudança e passa a ser percebida como algo distante, inacessível e, muitas vezes, inútil.

Quando recursos públicos deixam de ser investidos adequadamente em áreas essenciais como saúde, educação, assistência social, geração de emprego e moradia, a população vivencia uma sobrecarga constante. O trabalhador precisa lidar com jornadas exaustivas, insegurança financeira, dificuldades de acesso a serviços básicos e falta de perspectivas para o futuro.

A saúde mental não é produzida apenas por fatores individuais. Ela está diretamente relacionada às condições materiais e sociais de existência. Ansiedade, depressão, esgotamento emocional e sofrimento psíquico são frequentemente agravados por contextos de desigualdade, instabilidade econômica e ausência de proteção social. Quando as políticas públicas falham em atender às necessidades básicas da população, o sofrimento deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a refletir problemas estruturais.

Outro aspecto relevante é aquilo que alguns autores chamam de “violência do consenso”. Embora exista uma aparente polarização política, muitas decisões econômicas fundamentais permanecem alinhadas aos interesses das elites que sustentam o sistema. Independentemente das mudanças de governo, as estruturas que produzem desigualdade tendem a permanecer intactas. Para o cidadão comum, isso gera a sensação de que pouco realmente muda em sua realidade cotidiana. O resultado é um sentimento crescente de frustração e alienação. Essa ruptura produz uma sensação de abandono social. Muitos brasileiros sentem que suas dificuldades não são compreendidas por aqueles que ocupam posições de poder. O trabalhador que enfrenta longas jornadas, transporte precário, dificuldades financeiras e insegurança constante percebe que suas demandas raramente são prioridade.  Essa percepção alimenta sentimentos de revolta, desesperança e desvalorização, fatores diretamente associados ao sofrimento psicológico.

Ao mesmo tempo, a lógica individualista presente na política contemporânea reforça a ideia de que cada pessoa é exclusivamente responsável por seu sucesso ou fracasso. Problemas estruturais são frequentemente apresentados como falhas individuais. Quem não consegue prosperar é levado a acreditar que não se esforçou o suficiente, ignorando as desigualdades e barreiras existentes. Essa narrativa contribui para o aumento da culpa, da autocobrança e do adoecimento emocional.

Dessa forma, a crise da política não afeta apenas a esfera institucional, mas também a saúde mental da população. Quando o bem comum é substituído pela busca de lucro, quando a participação cidadã dá lugar ao espetáculo e quando os interesses coletivos são subordinados aos privilégios de poucos, cria-se um ambiente social marcado pela insegurança, pelo cansaço e pela desesperança. A reconstrução de uma política verdadeiramente comprometida com as necessidades humanas não é apenas uma questão democrática, mas também uma condição fundamental para a promoção do bem-estar psicológico e da qualidade de vida da população brasileira. Afinal, não existe saúde mental plena em uma sociedade que transforma seus cidadãos em espectadores de decisões que determinam suas vidas sem lhes oferecer voz, pertencimento ou perspectivas reais de mudança.

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