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Virginia Fonseca

O dinheiro deixou de ser apenas uma ferramenta de troca,  para se tornar um marcador de existência: quem possui capital é visto como relevante, influente e digno de admiração.

 

Vivemos em uma época em que o valor de uma pessoa parece ser calculado menos por seu caráter ou seus princípios, e mais por sua capacidade de acumular riqueza e exibi-la. Se antes a identidade era construída a partir de papéis sociais, valores e pertencimento, hoje ela é frequentemente associada ao sucesso financeiro. O dinheiro deixou de ser apenas uma ferramenta de troca,  para se tornar um marcador de existência: quem possui capital é visto como relevante, influente e digno de admiração.

Nesse contexto, a ética passa a ocupar um lugar secundário. O que importa não é mais “como” alguém chegou ao topo, mas o fato de ter chegado. Essa lógica ajuda a explicar por que figuras envolvidas em escândalos, golpes financeiros ou práticas moralmente questionáveis continuam recebendo atenção, seguidores e até admiração. O sucesso material parece funcionar como uma espécie de absolvição simbólica. O fato de ter pessoas que colocam influenciadores investigados ou presos como se fossem coitados injustiçados, é reflexo dessa cultura de “ eu queria estar dando esse golpe no seu lugar”.

A ascensão dos influenciadores digitais evidencia esse fenômeno. O fascínio pelo luxo, pelas viagens, pelos carros e pela ostentação cria uma narrativa em que o consumo é apresentado como prova de valor pessoal. A vida se transforma em uma vitrine permanente, e a quantidade de dinheiro que alguém aparenta possuir passa a definir sua autoridade. Não por acaso, muitos seguidores enxergam essas figuras como modelos de sucesso, independentemente das questões éticas envolvidas em suas trajetórias.

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O crescimento das plataformas de apostas online, as chamadas bets, também pode ser analisado sob essa perspectiva. Elas vendem a promessa de um atalho para o sucesso financeiro em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela sensação de esgotamento. Para quem trabalha muito e vê pouca recompensa, a ideia de enriquecer rapidamente se torna extremamente sedutora. O lucro deixa de ser consequência de um processo e passa a ser tratado como um fim em si mesmo. Quando influenciadores promovem apostas, muitas vezes associando-as a estilos de vida luxuosos, reforçam a mensagem de que o objetivo principal da vida é acumular riqueza e consumir. Nesse cenário, o debate sobre responsabilidade social, impactos financeiros ou consequências psicológicas tende a ficar em segundo plano. O importante é a imagem do vencedor.

Essa lógica também afeta a política. Em vez de funcionar como um espaço de mediação entre interesses coletivos e econômicos, ela frequentemente é percebida como subordinada aos interesses do mercado e dos grandes grupos financeiros. O cidadão comum, especialmente o trabalhador, passa a ser visto apenas como alguém que ainda não conseguiu alcançar o desempenho esperado pelo sistema. O fracasso deixa de ser entendido como resultado de desigualdades estruturais e passa a ser interpretado como falha individual.

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Talvez uma das consequências mais profundas desse processo seja a transformação da vergonha e da culpa. Em outras épocas, a preocupação central estava relacionada ao julgamento moral das próprias ações. Hoje, muitas pessoas parecem sofrer menos por terem feito algo considerado errado e mais por não terem alcançado o padrão de sucesso econômico que lhes é constantemente apresentado. A insuficiência substitui a culpa; a comparação substitui a reflexão ética.

O resultado é uma sociedade em que identidade, reconhecimento e prestígio são cada vez mais determinados pelo capital. O consumo torna-se linguagem de pertencimento, os influenciadores tornam-se símbolos de realização e a riqueza transforma-se em critério de validação social. Nesse contexto, a pergunta “quem sou eu?” é frequentemente substituída por outra: “quanto eu tenho?”.

E talvez esse seja um dos maiores desafios contemporâneos: recuperar a capacidade de reconhecer valor humano para além do dinheiro, lembrando que sucesso financeiro e valor moral não são a mesma coisa.

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