Foto: arquivo pessoal
Pela primeira vez, o movimento LGBTQIAPN+ de Montes Claros passa a integrar oficialmente o Conselho Municipal de Saúde (CMS), considerado a principal instância de deliberação das políticas públicas de saúde no município. A conquista foi oficializada no último dia 6 de maio, quando as organizações Arco-Íris do Amor e MGG garantiram uma cadeira no órgão para o triênio 2026-2029.
A representação será exercida pelo sociólogo e advogado Paulo Thiago como conselheiro titular, tendo como suplente o coordenador das Políticas de Diversidade e Cidadania, José Cândido Souza Filho, conhecido como Candinho.
A presença do movimento no conselho é considerada um marco histórico para a população LGBTQIAPN+ do município, ampliando a representatividade da comunidade nos debates sobre formulação, fiscalização e acompanhamento das políticas públicas de saúde.
Segundo Candinho, a participação permitirá que demandas específicas da população LGBTQIA+ sejam debatidas diretamente no espaço de decisão. “Agora vamos poder pautar e defender políticas públicas LGBTQIA+ em prol da população LGBT”, afirmou.
Ele destacou ainda que a presença no conselho fortalece a busca por ações mais efetivas e por políticas que garantam mais dignidade, visibilidade e direitos à comunidade.
Entre os avanços já conquistados em Montes Claros, Candinho apontou a criação do ambulatório trans como uma das principais vitórias do movimento LGBTQIA+ no município. Segundo ele, o espaço oferece acompanhamento especializado com psicólogos, psiquiatras, assistência social e atendimento médico adequado para pessoas trans.
“O maior sonho da população LGBT era o ambulatório trans, e hoje já é uma realidade”, comentou.
De acordo com ele, antes da criação do serviço, muitas pessoas utilizavam hormônios sem acompanhamento profissional, o que poderia provocar graves problemas de saúde. Atualmente, o atendimento é realizado com acompanhamento médico especializado.
Além do fortalecimento do ambulatório trans, o movimento pretende defender novas pautas dentro do Conselho Municipal de Saúde, incluindo a captação de recursos e editais destinados à população LGBTQIA+ e a criação de uma casa de acolhimento para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
“A gente quer trazer para o município projetos e recursos voltados para a população LGBT, principalmente para pessoas que ainda vivem em situação de vulnerabilidade”, destacou Candinho.
Para Paulo Thiago, a participação da comunidade LGBTQIA+ no conselho é fundamental para garantir que as especificidades dessa população sejam compreendidas e debatidas de forma qualificada nas políticas públicas de saúde.
“Quando se trata de políticas públicas de saúde, em algum momento elas vão lidar com pessoas LGBTs, porque elas estão na sociedade e também precisam acessar os serviços de saúde”, afirmou.
O advogado ressaltou que ainda existe falta de informação sobre determinadas realidades enfrentadas pela população LGBTQIA+, inclusive nos serviços públicos, o que reforça a necessidade de capacitação e acolhimento adequado.
“Nem sempre é maldade ou preconceito. Muitas vezes é falta de informação e de letramento sobre essas questões”, explicou.
Paulo Thiago também defendeu a implantação do Comitê Municipal LGBT, que, segundo ele, já possui estrutura organizada e aguarda oficialização pelo Executivo Municipal. O objetivo seria auxiliar na construção e acompanhamento de políticas públicas voltadas à comunidade.
Outro ponto levantado pelo representante é a necessidade de humanização no atendimento à população LGBTQIA+ nas unidades de saúde. Ele relatou situações em que expressões consideradas comuns acabam sendo interpretadas como ofensivas e excludentes pela comunidade LGBT.
“Pode parecer algo sem importância para o público em geral, mas determinadas expressões acabam sendo muito agressivas para o público LGBT”, ressaltou.
Ao comentar o significado da conquista para outros movimentos sociais, Paulo Thiago destacou a importância da presença de grupos historicamente marginalizados nos espaços de decisão pública.
“As pessoas que estão à margem e não costumam ter voz política também precisam ocupar esses espaços”, declarou.
Segundo os representantes do movimento, a chegada da comunidade LGBTQIAPN+ ao Conselho Municipal de Saúde simboliza não apenas representatividade, mas também a expectativa de construção de políticas públicas mais inclusivas, humanizadas e voltadas à garantia dos direitos humanos.
