Literatura e política se encontram em noite de lançamento de livros sobre democracia, religião e extremismo em Montes Claros

Foto: Criação chat

Mara Narciso e Georgino Jorge de Souza Neto apresentam obras que discutem memória política, radicalização ideológica e os riscos da mistura entre fé e poder

 

Em meio às discussões cada vez mais intensas sobre democracia, religião, polarização política e extremismo no Brasil, dois escritores de Montes Claros promovem, no próximo dia 15 de maio, uma noite dedicada à reflexão crítica sobre o cenário político e social do país. A médica endocrinologista aposentada, jornalista e escritora Mara Yamar Narciso da Cruz, conhecida como Mara Narciso, e o professor e escritor Georgino Jorge de Souza Neto lançam, juntos, os livros Impressões Políticas de uma Militante e 2049: O Último Carnaval.

O evento acontece na sexta-feira, 15 de maio, às 19h, na Casa do Mandato da deputada estadual Leninha, localizada na Rua Gentil Pereira Soares, nº 36, no bairro Panorama, em Montes Claros. A entrada será gratuita e o público poderá participar de uma roda de conversa com os autores, além de sessão de autógrafos e venda dos exemplares.

Com trajetórias distintas, mas com discursos que dialogam diretamente entre si, os dois autores utilizam a literatura como instrumento de reflexão política, crítica social e incentivo à formação do pensamento crítico. Enquanto Mara Narciso revisita acontecimentos políticos do Brasil a partir de experiências pessoais acumuladas ao longo de mais de quatro décadas, Georgino Jorge de Souza Neto aposta em uma narrativa distópica para alertar sobre os riscos do fanatismo religioso e da radicalização ideológica.

Mara Narciso atuou como médica endocrinologista e é formada em Jornalismo. Foto: arquivo pessoal

Mara Narciso atuou por 40 anos como médica endocrinologista e é formada em Jornalismo há 16 anos. Escrevendo para publicação desde 2004, ela afirma que decidiu reunir em livro as percepções construídas ao longo da própria trajetória profissional, política e social. Segundo a autora, Impressões Políticas de uma Militante apresenta uma leitura pessoal dos principais fatos políticos do país desde a década de 1980, sempre sob uma perspectiva feminina.

“O livro além de mostrar uma visão política, mostra também as marcas que ficaram desses fatos importantes que aconteceram nesses últimos 46 anos”, afirmou.

A escritora explica que a obra não tem caráter acadêmico, histórico ou doutrinário, mas sim uma abordagem baseada em experiências, observações e memórias políticas. “Eu falo das minhas impressões sobre presidentes, fatos políticos e sobre como vejo a situação do Brasil hoje. É uma escrita leve, jornalística, com pontuações poéticas, filosóficas e experiências de vida”, destacou.

No livro, Mara também aborda como construiu sua consciência política dentro de um ambiente conservador e predominantemente alinhado à extrema-direita. “Meu pai era de extrema-direita e falava disso durante os almoços. O ambiente médico também é muito conservador. Mas fui formando minha visão observando a vida, convivendo com pessoas diferentes, ouvindo músicas e vendo o mundo acontecer”, disse.

A autora afirma que sua visão ideológica não nasceu de teorias políticas, mas das experiências vividas ao longo da vida. “Eu quero o melhor para a maioria e não apenas para um pequeno grupo. Essa é a minha visão de mundo”, declarou.

Ao analisar o cenário político brasileiro, Mara criticou a descontinuidade de políticas públicas entre governos e o desperdício de recursos causado por disputas políticas. “Muitas vezes um governo começa uma obra e o outro abandona ou destrói para fazer algo diferente e aparecer mais. Isso é dinheiro público sendo jogado fora”, comentou.

A escritora também defendeu a pluralidade de ideias e o fortalecimento do pensamento crítico. Segundo ela, a população precisa buscar diferentes fontes de informação para formar opiniões próprias. “A escola e a sociedade devem mostrar diferentes lados da história para que cada um desenvolva consciência crítica”, afirmou.

Georgino Jorge de Sousa Neto é professor e escritor. Foto: arquivo pessoal

Já o professor e escritor Georgino Jorge de Souza Neto apresenta em 2049: O Último Carnaval uma distopia inspirada nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Na obra, o autor imagina um Brasil governado por uma teocracia formada por militares e grupos religiosos extremistas, em um regime fictício chamado “Evangelistão”.

Segundo Georgino, a ideia do livro surgiu após o ataque às sedes dos Três Poderes, em Brasília. “Foi um incômodo muito grande perceber o risco que a democracia correu naquele momento. A partir disso, comecei a imaginar um cenário em que aquilo tivesse dado certo”, afirmou.

O escritor explicou que passou cerca de um ano desenvolvendo a narrativa, ampliando elementos da realidade brasileira para criar a ficção distópica ambientada em 2049. Apesar de ser uma obra ficcional, ele afirma que o livro funciona como um alerta político e social. “A história mostra os riscos do fanatismo guiado pela manipulação da fé e como isso pode colocar a democracia em perigo”, disse.

Ao comentar a relação entre religião e política, Georgino afirmou que o crescimento de discursos religiosos conservadores dentro da política brasileira representa um sinal de alerta. “Quando o púlpito vira palanque, religião e política acabam se misturando”, avaliou.

O autor também comentou sobre o crescimento de segmentos conservadores dentro do catolicismo brasileiro e da expansão das igrejas neopentecostais no país. Para ele, esse movimento tem fortalecido discursos mais radicais e intolerantes no ambiente político.

“Afinal, já existem países governados sob regimes religiosos extremistas, e o mundo conhece as consequências desse modelo para a população e para a liberdade democrática”, destacou.

Apesar do tom crítico da obra, Georgino afirmou acreditar que ainda existe espaço para resistência democrática. “O que aconteceu em 2023 mostrou que algo pior foi evitado, mas os riscos continuam existindo. O livro é um alerta para que as pessoas prestem atenção e resistam a esse processo de manipulação”, declarou.

Mesmo sem ter concluído a leitura do livro de Georgino, Mara Narciso afirmou perceber grande proximidade temática entre as duas obras. Segundo ela, ambas discutem os riscos da mistura entre religião e política e o crescimento da intolerância ideológica no Brasil.

“Nós caminhamos na mesma direção. Eu também falo da possibilidade de o Brasil se transformar em uma espécie de ‘Evangelistão’, uma pátria dominada pela religião e pela política religiosa”, comentou.

Mara também defendeu a convivência democrática entre diferentes correntes políticas. “Nós conseguimos conviver e conversar com pessoas de direita sem nenhum problema. Elas não são inimigas, são adversárias ideológicas. O problema está na intolerância e na tentativa de eliminar quem pensa diferente”, afirmou.

Os autores destacaram que o encontro pretende promover um espaço de diálogo, reflexão e troca de experiências por meio da literatura. “Será um momento para conversar sobre literatura e sobre como ela pode contribuir para a formação da consciência crítica e social das pessoas”, concluiu Georgino.

Foto: Divulgação

About The Author