Foto: Divulgação

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Mariah evidencia aspectos importantes de uma relação abusiva, especialmente quando observamos a presença de controle, manipulação, intimidação e perda progressiva da autonomia.

Finalmente terminei a leitura da biografia da Mariah Carey, apesar de ser a minha cantora favorita, eu não tinha ideia do quanto ela teve uma vida dificil, ao relatar sua experiência no relacionamento com Tommy, Mariah apresenta situações que vão muito além de conflitos conjugais ou dificuldades de convivência.  Mariah evidencia aspectos importantes de uma relação abusiva, especialmente quando observamos a presença de controle, manipulação, intimidação e perda progressiva da autonomia.

Entre os episódios relatados, um dos mais preocupantes é o fato de Mariah ser acompanhada por seguranças armados, vigiada e impedida de sair sozinha. Ela descreve uma realidade na qual sua liberdade estava condicionada à autorização e ao controle do próprio marido. Em determinado momento, aquilo que poderia ser confundido com proteção, cuidado ou preocupação passou a representar uma restrição de direitos básicos: circular livremente, fazer escolhas e ter uma vida independente. E aqui existe um ponto importante: controle não é cuidado, vigilância não é proteção e privar alguém da liberdade não é uma demonstração de amor.

Relacionamentos abusivos nem sempre começam com agressões explícitas. Muitas vezes, começam com comportamentos que são apresentados como demonstrações de carinho, preocupação ou intensidade emocional. A pessoa quer saber onde você está, com quem está, como se veste, com quem conversa e por que deseja fazer determinadas coisas. Aos poucos, essas perguntas deixam de ser manifestações de interesse e passam a funcionar como mecanismos de fiscalização.

Mariah descreve Tommy como uma figura que reunia características de figura paterna, parceiro de negócios, confidente e companheiro. Ela também reconhece que, naquele momento da vida, buscava segurança, estabilidade e uma sensação de pertencimento, mais do que propriamente uma relação amorosa.

Essa passagem merece atenção porque nos ajuda a compreender como algumas necessidades emocionais podem influenciar a maneira como nos vinculamos. Quando alguém encontra em outra pessoa a promessa de segurança, proteção ou estabilidade, pode acabar tolerando comportamentos que ultrapassam seus limites. Isso não significa que a pessoa seja responsável pelo abuso ou que tenha escolhido ser controlada. Significa que compreender suas necessidades, vulnerabilidades e experiências anteriores pode ser uma parte importante do processo terapêutico.

Há ainda outro sinal bastante significativo: a dificuldade de reconhecer a relação como abusiva enquanto se está inserida nela. Mariah relata que muitas pessoas questionavam seu relacionamento, mas ela própria também tinha dúvidas. Mesmo percebendo o desequilíbrio de poder e o sofrimento emocional, ainda existia a expectativa de que Tommy mudasse.

Essa expectativa pode manter muitas mulheres presas a relações prejudiciais. A pessoa não se relaciona apenas com aquilo que o parceiro demonstra no presente, mas também com aquilo que acredita que ele poderá se tornar. Assim, momentos de carinho, promessas de mudança e períodos de aparente tranquilidade podem alimentar a esperança de que a relação finalmente será diferente.

É importante compreender que a violência psicológica não precisa envolver agressões físicas para produzir sofrimento significativo. Humilhações, ameaças, isolamento social, vigilância, intimidação, manipulação e restrições financeiras ou de circulação também são manifestações de violência. Quando esses comportamentos passam a organizar a rotina de uma mulher, sua autonomia e sua percepção de si mesma podem ficar profundamente comprometidas.

E onde entra a terapia nessa história?

Ela conta que, ao longo desse percurso, conseguiu compreender a dimensão do que vivia, identificar o caráter abusivo daquela relação e perceber que não merecia ser prisioneira do próprio marido. Esse processo é muito significativo porque, em relações marcadas pelo controle, a mulher pode começar a questionar a própria percepção da realidade. Pode sentir culpa por contrariar o parceiro, medo de desagradá-lo, insegurança para tomar decisões e até dificuldade de imaginar uma vida fora daquela dinâmica.

Na terapia, não se trata simplesmente de dizer a uma mulher que ela precisa terminar um relacionamento. Trata-se de construir um espaço seguro para que ela consiga compreender o que está vivendo, reconhecer padrões de violência, identificar suas necessidades emocionais e recuperar gradualmente a confiança na própria capacidade de escolha.

A partir da abordagem cognitivo-comportamental, por exemplo, é possível trabalhar crenças relacionadas ao merecimento, abandono, culpa, responsabilidade excessiva e necessidade de aprovação. Também é possível desenvolver habilidades de assertividade, fortalecer a autoestima, reconhecer limites e reconstruir a autonomia.

Outro trabalho essencial é ajudar essa mulher a diferenciar responsabilidade de culpa. Ela pode ser responsável por suas escolhas e atitudes, mas não é responsável pelas agressões, ameaças ou reações violentas de outra pessoa. Não precisa se tornar cada vez mais obediente, silenciosa ou cuidadosa para evitar que alguém ultrapasse seus limites.

É importante lembrar que, quando existe vigilância, intimidação ou ameaça, a recuperação da autonomia também precisa considerar a segurança. O acompanhamento psicológico pode contribuir para a construção de estratégias de proteção, identificação de uma rede de apoio e busca por serviços especializados. A saída de uma relação abusiva nem sempre é simples ou imediata, e cada mulher precisa ter seu tempo e suas condições respeitados. É justamente esse trabalho que realizo com mulheres na clínica todos os dias.

Acolho mulheres que chegam carregando inseguranças, culpa, medo de ficar sozinhas, dificuldade de estabelecer limites e uma sensação constante de que precisam se adaptar às expectativas de outras pessoas para serem amadas.  Mulheres que, muitas vezes, passaram tanto tempo tentando não desagradar alguém que já não conseguem identificar o que desejam para a própria vida. Nosso trabalho envolve olhar para essas histórias sem julgamentos, compreender como determinados padrões foram construídos e desenvolver novas possibilidades de relacionamento consigo mesmas e com os outros.

Porque recuperar a autoestima não significa simplesmente começar a se achar bonita ou repetir frases positivas diante do espelho. Significa também reconhecer que seus sentimentos importam, que suas escolhas merecem respeito, que você pode discordar, estabelecer limites e existir sem precisar pedir autorização para ser quem é. Nenhuma mulher deveria precisar abrir mão da própria liberdade para conseguir permanecer em um relacionamento. E nenhuma história de amor deveria exigir que alguém se torne prisioneira para provar que ama.

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