Foto: Kumon
No Dia Mundial de Combate ao Bullying, celebrado em 20 de outubro, dados revelam a dimensão da violência entre crianças e adolescentes no Brasil e mostram que o problema ultrapassa os limites das escolas. O levantamento do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com base em estatísticas de 2025, revelou que os registros policiais de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes cresceram 67,3% em 2025, chegando a 5.226 ocorrências em todo o país.
Alinhado diretamente com a realidade observada nas salas de aula, a edição de 2026 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a partir de relatos coletados em 2024, mostra que cerca de 40% dos alunos de 13 a 17 anos, afirmam ter sido alvos de bullying na escola.
O médico e professor da pós-graduação em Psiquiatria, Cláudio Costa, comenta que o bullying é caracterizado por um comportamento agressivo, intencional e repetitivo entre colegas, marcado por um desequilíbrio de poder entre o agressor e a vítima. Essa diferença pode estar relacionada à força física, à idade, ao status social ou à ação de um grupo contra um indivíduo, dificultando a defesa de quem sofre a violência.
“Esse tipo de comportamento pode se manifestar por meio de agressões físicas, insultos, humilhações, exclusão social e difamação. Já o cyberbullying ocorre por meios eletrônicos, como grupos de WhatsApp e jogos on-line, nos quais crianças e adolescentes podem ser alvo de ofensas, apelidos pejorativos, mentiras e humilhações diante de outras pessoas”.
O especialista destaca que embora o bullying não seja classificado pela psiquiatria como um transtorno mental específico, suas consequências psicológicas podem ser graves levando as vítimas a apresentar sintomas de depressão, ansiedade e estresse, além de comportamentos de autolesão e risco de suicídio. “Esse sofrimento também pode levar ao abandono escolar, ao isolamento e à reclusão em casa, fazendo com que crianças e adolescentes deixem de frequentar ambientes sociais e de participar de atividades como festas e esportes na escola. São impactos que podem comprometer significativamente o bem-estar e a vida social das vítimas”.
A recorrência também impressiona, de acordo com a pesquisa do IBGE, 27,2% dos alunos dessa faixa etária disseram ter sofrido algum tipo de humilhação duas ou mais vezes. O impacto é ainda mais forte entre as meninas, em que a taxa de vitimização salta para 43,3%.
“A vitimização relacionada à aparência física atinge preferencialmente meninas e está associada a prejuízos na autoestima, no humor e no desenvolvimento emocional. Estudos apontam um aumento das zombarias e humilhações direcionadas às meninas em razão da aparência física, um fenômeno associado à expressão body shaming, que se refere à vergonha do próprio corpo e da própria aparência. Esse tipo de agressão pode provocar sofrimento emocional intenso, comprometer a autoestima e afetar a maneira como crianças e adolescentes se percebem e se relacionam com os outros, levando, inclusive, ao isolamento social”.
De acordo com o levantamento, a aparência do rosto ou do cabelo lidera como o principal gatilho das ofensas, motivando 30,2% dos casos relatados. Além da violência psicossocial, 16,6% dos jovens declararam já ter sofrido agressão física por parte de colegas. Por outro lado, o levantamento expõe a percepção dos próprios agressores, mostrando que 13,7% dos estudantes admitiram praticar bullying.