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Até onde pode ir um super-herói quando o vilão está dentro de casa? Livro infantil inspirado em tragédia real enfrenta violência e abuso de poder

O Dia das Crianças se aproxima e logo vem a mente a alegria, a festa, presentes e as brincadeiras coisas lúdicas do universo infantil, mas nem sempre essa realidade é de todos os pequenos. Muitas vezes, por trás das inocentes brincadeiras existem atitudes ruins e maldade que muitas vezes estão dentro de casa.

Inspirado no caso de repercussão nacional do menino Henry Borel, o escritor e professor Antonio Sampaio Dória lança obra infantojuvenil que debate abuso de poder, coragem e a necessidade vital de escuta atenta das crianças.

Tratar de temas densos no universo infantojuvenil é um desafio complexo, que exige equilibrar sensibilidade, respeito e a linguagem apropriada para os jovens leitores. Em seu mais novo lançamento, “Super Henry” (Abrementes Editora), o escritor, professor e mestre em Literatura Comparada pela USP, Antonio Sampaio Dória, rompe com o tom didático e moralizante para mergulhar em questões urgentes da sociedade brasileira: a violência doméstica, o abuso de poder e a influência das milícias no cotidiano das periferias.

Com ilustrações em aquarela assinadas por Raissa Castro, a obra se inspira na tragédia real do menino Henry Borel para construir uma narrativa rica em coragem, imaginação e protagonismo infantil.

Do heroísmo à dura realidade do lar

A história se passa no Morro do Castelo, uma comunidade sob a dominação opressiva do temido Coronel e de seus seguranças. Nesse cenário vive Henry, um garoto teimoso e criativo que veste sua capa azul, pega seu estilingue e assume a identidade de um herói pronto para proteger o morro ao lado dos amigos Tatu, Foca e Pulga.

No entanto, o conflito mais severo da narrativa não vem da rua, mas de dentro de casa. Após a separação dos pais e o novo relacionamento da mãe com “Dito Cujo”, filho do Coronel, o menino passa a vivenciar agressões físicas, rasteiras e manipulação psicológica. Diferente da omissão que muitas vezes cerca casos reais, o Henry do livro enfrenta o perigo, tenta alertar os adultos e protege sua mãe, vivendo um arco clássico de amadurecimento e superação.

A narrativa explora ainda a ética e a empatia por meio de conceitos lúdicos. O garoto cunha a palavra “Pendimento” — uma forma de traduzir o arrependimento como uma pedra pesada amarrada ao pescoço, simbolizando o peso na consciência daqueles que causam dor.

A visão da psicologia: proteção, sinais e acolhimento

Para entender a dimensão emocional da obra e o papel dos adultos na identificação de abusos, a psicóloga clínica Marcela Andrade Amaral pontua a relevância de dar visibilidade ao tema tanto para os jovens quanto para as famílias.

“Livros como ‘Super Henry’ cumprem uma função protetiva fundamental. A criança que vive uma situação de violência ou manipulação psicológica nem sempre tem repertório verbal para nomear o abuso. Ao se enxergar no personagem, ela percebe que a culpa não é dela e que ela tem o direito de ser protegida. A literatura se torna um canal de validação emocional e um incentivo para que a criança busque ajuda, rompa o silêncio e confie nos seus próprios sentimentos.”

A especialista destaca, ainda, a responsabilidade continuada da rede de apoio (pais, familiares, professores e redes de proteção) em manter a atenção redobrada aos comportamentos dos pequenos no dia a dia.

“As crianças nem sempre comunicam o sofrimento de forma direta; muitas vezes, a dor se manifesta na mudança repentina de comportamento, no isolamento, em pesadelos constantes ou em brincadeiras que reproduzem cenas de agressividade. O grande alerta para os pais e educadores é praticar a escuta sem julgamentos ou invalidações. Quando uma criança sinaliza que algo não vai bem ou tenta relatar uma agressão, a prioridade absoluta do adulto deve ser acolher, investigar e proteger, nunca minimizar ou duvidar do relato” completou a psicóloga.

O autor Antônio Sampaio Doria – Foto: Divulgação

 

Além do didatismo: arte e consciência social

A iniciativa reflete o projeto editorial de Antonio Sampaio Dória à frente da Abrementes Editora, fundada em 2025. Com obras anteriores que debatem temas como o racismo (A Virada de Tia Nastácia) e a censura (Era uma vez… E não é mais!), o autor defende uma literatura que não trata o leitor com paternalismo.

Inspirado em clássicos que moldaram sua infância, como Os meninos da rua Paulo e Tistu, o menino do dedo verde, Dória constrói uma jornada em que as crianças não são apenas espectadoras passivas, mas observadoras atentas da realidade, capazes de agir com coragem diante do arbítrio.

Em “Super Henry”, a tragédia que dá origem ao livro ganha contornos de fantasia e justiça no terço final, reforçando que, acima do sofrimento, permanece a necessidade de prestação de contas, de preservação da memória e do cuidado incondicional com a infância.

 

Caso Henri

O garoto Henry Borel – Imagem: Reprodução / Redes Sociais

O Crime: O garoto Henry Borel, de 4 anos, morreu na madrugada de 8 de março de 2021 no Rio de Janeiro devido a uma hemorragia interna e laceração hepática causada por agressões. Laudos do IML apontaram 23 lesões pelo corpo, contrariando a versão inicial de acidente doméstico (queda da cama).

A Condenação de Jairinho: Em junho de 2026, após um longo julgamento pelo 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior (Dr. Jairinho) foi considerado culpado por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no curso do processo, pegando 43 anos, 9 meses e 20 dias de reclusão. A defesa informou que pretende recorrer e pedir a anulação do júri.

A Situação de Monique Medeiros: A mãe do menino foi condenada, mas o tribunal concedeu a ela perdão judicial, considerando que a perda do filho e a repercussão pública já eram penas suficientes, resultando em sua liberação da prisão.

 

Legislação: O caso motivou a criação da Lei Henry Borel (Lei Federal nº 14.344/2022), que endurece a punição para crimes de violência contra crianças e adolescentes.

 

 

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