Fotos: Acervo familiar
Menos de um mês para o Dia das Crianças e o varejo já se prepara para a data. O setor de brinquedos faturou R$ 10,39 bilhões em 2025, segundo o Anuário da Abrinq 2026, e o comércio eletrônico deve levantar R$ 10,16 bilhões apenas nos 14 dias que antecedem o 12 de outubro, projeta a ABIACOM. Na última pesquisa de intenção de compra da CNDL e do SPC Brasil, sete em cada dez consumidores disseram que pretendiam comprar ao menos um presente, com gasto médio de R$ 297. Brinquedos lideravam a preferência, com cerca de metade das escolhas. O pediatra e gestor de saúde Tiago Simões Leite tem uma proposta para quem vai às lojas: antes de escolher o presente, escolher o tempo que vai brincar com a criança.
O pediatra, que estuda evolução da obesidade infantil no Brasil, vem falando em entrevistas sobre o impacto das telas. Os números justificam a preocupação. O Panorama da Primeira Infância, levantamento da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal com o Datafolha, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas diariamente a telas. Na faixa de 4 a 6 anos, o índice chega a 94%. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda zero telas até os 2 anos e, no máximo, uma hora por dia entre 2 e 5 anos, no documento #MenosTelas #MaisSaúde, atualizado em 2024.
“Como tirar as crianças das telas se nós, os pais, também estamos fascinados por elas? A pergunta certa é o que oferecer no lugar. E a resposta é simples: o chão da sala, um jogo de tabuleiro, uma bola. O brincar disputa espaço com a tela e ganha quando o adulto participa”, ensina Tiago Simões Leite. Pai de um menino de 2 anos e uma bebê de 4 meses, ele sente na rotina os dilemas das famílias modernas. “É uma escolha diária achar tempo para trabalhar, brincar, conversar com a minha esposa e embalar a Sara. Algumas coisas precisam ficar para depois e está tudo bem. Faz parte da vida do adulto escolher e se responsabilizar”, avalia.
Brincar é importante para criar vínculo e o caminho da aprendizagem
O brincar não é passatempo. O relatório The Power of Play, da Academia Americana de Pediatria, reafirmado em janeiro de 2025, é direto: brincadeiras adequadas à idade, com pais e colegas, são uma oportunidade única para desenvolver habilidades socioemocionais, cognitivas, de linguagem e de autorregulação, que constroem a função executiva e o que os pesquisadores chamam de cérebro pró-social.
Em janeiro de 2026, a própria AAP voltou ao tema no centro de conhecimento First 1000 Days para lembrar que o brincar sustenta o desenvolvimento saudável, fortalece relações e ajuda a amortecer o estresse tóxico. Brincar é também o caminho mais natural de aprender. É no faz de conta que a criança ensaia papéis, resolve problemas e cria hipóteses sobre o mundo.
“Brincar é uma das formas mais potentes de aprender. Quando a criança empilha blocos, está fazendo matemática. Quando inventa uma história, está construindo linguagem. O brinquedo é o material didático da infância”, explica Tiago Simões Leite, sentado no chão, brincando com Isaac.
Para Tiago, o vínculo vem antes do desenvolvimento. “Criança não precisa de mais um brinquedo. Precisa de alguém que sente no chão com ela. O vínculo se constrói nesses minutos de atenção inteira, sem celular na mão do adulto. Isso nenhuma loja vende.”
Cuidado na hora de presentear
Para tios, avós e padrinhos que vão às compras, Tiago Simões Leite reforça o básico que muita gente ignora. Todo brinquedo vendido no Brasil para crianças de até 14 anos deve ter o selo do Inmetro, que atesta que o produto passou por ensaios de segurança. O alerta vale também para as compras online. “É importante também conferir a faixa etária indicada na embalagem e desconfiar de preços muito abaixo do mercado”, ensina o pediatra.