É o que sugere um estudo conduzido pela Mayo Clinic e publicado em 2026 na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health. A pesquisa observou que mulheres na pós-menopausa que utilizavam terapia hormonal da menopausa durante o tratamento com tirzepatida apresentaram perda de peso significativamente maior do que aquelas tratadas apenas com o medicamento.
Foram avaliadas 120 mulheres com sobrepeso ou obesidade que utilizaram tirzepatida por pelo menos 12 meses. Destas, 40 faziam terapia hormonal sistêmica e foram comparadas a 80 mulheres com características semelhantes que não utilizavam hormônios.
No último seguimento, o grupo que utilizava terapia hormonal apresentou redução média de 19,2% do peso corporal, contra 14% no grupo sem terapia hormonal. Após aproximadamente 15 meses de tratamento, os pesquisadores calcularam uma perda de peso cerca de 35% maior entre as usuárias de terapia hormonal.
Os resultados se tornam ainda mais expressivos quando são analisadas perdas de peso maiores: 45% das mulheres que associavam os tratamentos perderam pelo menos 20% do peso corporal, contra 24% entre aquelas que utilizavam apenas tirzepatida. Para perdas iguais ou superiores a 30%, as proporções foram de 18% contra 4%, respectivamente.
Para a endocrinologista e metabologista Dra. Ully Caroline Fernandes e Sousa, o estudo é importante porque ajuda a desmontar uma visão excessivamente simplista sobre ganho de peso depois dos 40.
“A mulher não entra na menopausa apenas com menos estrogênio. Ela entra em um novo ambiente metabólico. Há maior tendência ao acúmulo de gordura visceral, perda progressiva de massa magra, alterações no gasto energético e, muitas vezes, piora do sono e dos sintomas vasomotores. Então não faz sentido imaginar que a obesidade dessa mulher possa ser tratada olhando somente para fome e calorias.”
A menopausa muda o metabolismo — e pode mudar também a resposta ao tratamento
A queda estrogênica está associada à redistribuição de gordura corporal, com maior deposição abdominal, além de alterações na composição corporal e no metabolismo energético.
Isso não significa que toda mulher obrigatoriamente ganhará peso na menopausa, nem que o estrogênio seja um medicamento para emagrecer. Significa que o contexto hormonal pode interferir no cenário metabólico no qual o tratamento da obesidade acontece.
“Esse é, para mim, o ponto mais interessante do estudo. A tirzepatida atua em mecanismos extremamente importantes de saciedade, controle alimentar e metabolismo por meio dos receptores de GIP e GLP-1. Mas a mulher continua tendo um metabolismo influenciado por estrogênio, composição corporal, sono, musculatura e distribuição de gordura. Medicina de precisão começa quando paramos de tratar todos os corpos como se fossem metabolicamente iguais.”, afirma a Dra. Ully.
A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1 e atualmente está entre os medicamentos com maior capacidade de induzir perda de peso no tratamento farmacológico da obesidade.
Terapia hormonal não deve ser prescrita para emagrecer
Apesar dos números expressivos, há uma ressalva fundamental.
O estudo da Mayo Clinic é retrospectivo e observacional. Isso significa que ele encontrou uma associação entre terapia hormonal e maior perda de peso, mas não consegue provar que os hormônios foram responsáveis diretamente pelo resultado.
As próprias pesquisadoras levantam hipóteses alternativas: mulheres em terapia hormonal podem ter um acompanhamento médico mais próximo, comportamentos de saúde diferentes ou, ao controlar fogachos, alterações do sono e outros sintomas da menopausa, podem ter maior facilidade para aderir à alimentação, aos exercícios e ao próprio tratamento da obesidade.
“Seria um erro transformar um estudo interessante em mais uma promessa de internet: ‘tome hormônio para a caneta funcionar melhor’. Terapia hormonal não é tratamento para emagrecimento. Ela deve ser prescrita quando existe indicação clínica para aquela mulher. O que esse trabalho nos obriga a discutir é outra coisa: talvez estejamos subestimando o quanto o ambiente hormonal interfere na resposta metabólica ao tratamento da obesidade.”, explica Dra. Ully.
Nem toda mulher é candidata à terapia hormonal
Antes da prescrição, devem ser avaliados idade, tempo desde a menopausa, sintomas, histórico pessoal e familiar, risco cardiovascular e tromboembólico, antecedentes de câncer hormônio-dependente, além da via, tipo e dose do tratamento hormonal.
Por isso, os resultados não devem incentivar a automedicação ou a associação indiscriminada de tirzepatida e hormônios.
Para Dra. Ully, a tendência mais importante revelada pelo estudo é outra: o tratamento da obesidade feminina caminha para ser cada vez mais individualizado.
“Eu não quero tratar apenas o número que aparece na balança. Quero saber se essa mulher está perdendo gordura ou músculo, como está sua força, seu sono, seus hormônios, seus micronutrientes e sua capacidade metabólica. Emagrecer vinte quilos às custas de massa muscular não é o mesmo resultado clínico que perder gordura preservando músculo, energia e saúde metabólica.”
Essa visão também explica por que estratégias de suporte nutricional e metabólico ganham relevância durante perdas de peso expressivas. Na prática clínica da Dra. Ully, a avaliação pode incluir adequação de proteínas, micronutrientes, suplementação individualizada e Aminoterapia®, método desenvolvido pela médica para suporte metabólico com aminoácidos e cofatores, sempre de maneira personalizada e de acordo com as necessidades clínicas da paciente.
“A caneta é uma ferramenta extraordinária quando bem indicada, mas não deveria ser tratada como um tratamento completo. Ela pode reduzir fome e produzir uma perda de peso impressionante. O papel da medicina é fazer com que essa mulher chegue ao final do processo não apenas mais leve, mas metabolicamente melhor.”
Os autores do estudo defendem agora a realização de ensaios clínicos prospectivos e randomizados para investigar se existe de fato uma relação causal entre terapia hormonal e uma resposta superior à tirzepatida, além dos mecanismos responsáveis pelo possível efeito.
Para Dra. Ully, mesmo antes dessas respostas, uma mensagem já merece atenção:
“A menopausa não deveria ser um detalhe na consulta de uma mulher que quer emagrecer. O ambiente hormonal faz parte da história metabólica dela. Ignorá-lo é tentar tratar apenas metade da paciente.”
Crédito: Dra. Ully Caroline Fernandes e Sousa