Bruno Nogueira nasceu em Lagoa da Prata (MG). É escritor, tradutor e doutorando em estudos literários pela UFPR, sob orientação de Caetano Galindo. Já foi vendedor, professor, roteirista e tradutor de artigos científicos. É autor da coletânea de contos “A síndrome do impostor” (Kotter, 2019) e do romance “Grito distante” (Kotter, 2024). Atualmente, divide-se entre Uberaba e Curitiba, onde desenvolve pesquisas sobre literatura e fronteiras entre ficção e realidade.
O personagem que dá voz a “Um Fracasso Assim Tão Brando” não veio de uma nota de rodapé nem de uma oficina de criação literária. Foi expulso do livro onde nasceu. Ao chegar ao mundo “extra-capas”, como chama a vida fora das páginas, sua conclusão é imediata: “a vida é bem pior que a ficção”. Incapaz de retornar ao romance de origem, ele decide escrever a própria obra para nela habitar — e o resultado é uma coletânea que o autor mineiro Bruno Nogueira, lançará no dia 29, pela editora orlando.
A premissa, que poderia soar como um exercício metalinguístico de gabinete, ganha carne e osso nos contos que se sucedem. O narrador-personagem perambula por bares, favelas, praias e apartamentos vazios, anotando o que vê com o estranhamento de quem não cresceu neste mundo. O leitor encontra desde um idoso que percorre uma favela por cinco dias, para pedir uma adolescente em casamento como quem fecha um contrato, até um frequentador de boteco que declama poesia em código próprio antes de sucumbir à cirrose. Há também o herdeiro que comemora a morte do pai com cerveja e churrasco, e o escritor que, para dar realismo a um conto de terror, decide testar facas em carne viva.
A violência, quando aparece, é quase sempre branda; a solidão é cotidiana; o grotesco mora ao lado do afeto. É nesse território incômodo que Nogueira constrói sua narrativa, recusando finais redondos ou lições de moral. A coletânea se apresenta como uma série de fragmentos — alguns curtos, outros mais extensos — intercalados por comentários do narrador sobre a própria escrita, num movimento que aproxima o livro do diário e do ensaio.
A pandemia de covid-19 ocupa um lugar central na segunda parte do livro, com relatos de ruas desertas, toque de recolher e a sensação de que o mundo havia parado — mas não a morte. “Os mortos já estão aqui. Os mortos falam alto o suficiente”, escreve o narrador num dos trechos mais ácidos. É também ali que Nogueira expõe com mais nitidez a matéria bruta de que o livro é feito: a fronteira entre o real e o ficcional se amolece, e o autor-personagem-escritor se confunde num jogo de espelhos que deságua na pergunta central: o que significa “fracassar” para quem faz arte?
A resposta, no livro, não vem como tese, mas como experiência. O narrador, depois de tentar escrever um romance e falhar, decide usar suas anotações sobre o mundo “extra-capas” como matéria-prima. O que poderia ser um atestado de impotência se transforma em método: o fracasso, aqui, não é o oposto do sucesso, mas um estado de criação. “Me tranquiliza saber que o fracasso, se vier, deve ser assim tão brando”, confessa o autor, fantasiado de personagem.
O lançamento acontecerá no primeiro sarau da Casa Kurí, restaurante e café que ocupa um casarão histórico no centro de Curitiba. O sarau também contará com a exposição de artes plásticas de Daacruz, apresentada por Chris Gioppo, e com apresentação da banda Jaguara, entre outras atrações.
Fonte: Editora Orlando
