Daqui por Diante chega à 5ª edição com 100 artistas e homenageia Zezé Colares

Foto: Larissa Durães

Exposição no Montes Claros Shopping transforma pandeiros em obras de arte e reúne memória, cultura, acessibilidade e solidariedade em uma única iniciativa

 

A arte contemporânea, a memória cultural e a solidariedade se encontram na quinta edição do Daqui por Diante, projeto idealizado pela Casa Bendita que reúne 100 artistas em uma exposição coletiva em Montes Claros. Em 2026, a iniciativa presta homenagem a Zezé Colares, pesquisadora e folclorista que teve papel importante na valorização e divulgação das manifestações culturais do Norte de Minas.

O projeto será realizado na Praça de Eventos do Montes Claros Shopping, espaço de grande circulação de público na cidade. A proposta é aproximar a produção artística do cotidiano da população e ampliar o acesso à arte contemporânea, reunindo trabalhos produzidos a partir de um mesmo elemento: o pandeiro.

A dinâmica é uma das principais características do Daqui por Diante. A cada edição, um objeto ou substrato é entregue aos participantes para que seja transformado em uma obra autoral. O elemento comum, no entanto, não é o protagonista. Ele funciona como ponto de partida para interpretações individuais, que podem envolver diferentes linguagens, conceitos e referências.

Nesta edição, o pandeiro estabelece uma relação direta com a cultura popular brasileira e com a trajetória de Zezé Colares, cuja atuação esteve ligada à pesquisa, preservação e divulgação do folclore e das tradições culturais de Montes Claros e do Norte de Minas.

Projeto nasceu durante aniversário de Montes Claros

A história do Daqui por Diante começou durante as comemorações do aniversário de Montes Claros. Na primeira edição, o projeto homenageou o renomado artista plástico e médico cirurgião, Konstantin Christoff e distribuiu 150 peças de madeira com uma sandália de couro para pessoas ligadas à criação, que foram convidadas a desenvolver intervenções inspiradas na tradição dos tropeiros.

A ideia, segundo Felicidade Tupinambá, uma das responsáveis pela iniciativa, juntamente com Caico Siufi, surgiu justamente da percepção de que Montes Claros é uma cidade marcada pela produção cultural.

Felicidade Tupinambá. Foto: Larissa Durães

“Nós estamos na cidade da cultura. Por que não 150?”, lembra Felicidade sobre a proposta que deu origem ao projeto.

O resultado da primeira experiência abriu caminho para novas edições e homenagens. Na segunda, o escolhido foi o escritor Guimarães Rosa, em razão do centenário de seu nascimento. Na ocasião, 100 moringas de artesanato foram distribuídas aos participantes.

Para Felicidade, a experiência revelou a capacidade de cada artista de construir uma interpretação própria a partir de um mesmo objeto.

“Cada um trouxe uma ideia única. Você recebe 100 trabalhos e nada semelhante. A criatividade é uma coisa maravilhosa”, destaca.

A terceira edição homenageou o pintor, desenhista e professor brasileiro, Ray Colares artista nascido em Grão Mogol e com vínculos com Montes Claros e a região. O objeto escolhido naquele ano foi o guarda-chuva. Na edição seguinte, o projeto voltou sua atenção para Elias Siufi,  importante empresário e jornalista, com a utilização de 100 rádios como suporte para as criações.

A proposta de homenagear personalidades ligadas à história e à cultura regional é, para Felicidade, uma forma de preservar a memória coletiva.

“O propósito maior do Daqui Por Diante é não deixar que essas pessoas que passaram por aqui fazendo maravilhas sejam esquecidas de alguma forma. A tendência é essa: a memória das pessoas, o registro e o reconhecimento”, afirma.

Homenagem a Zezé amplia espaço para mulheres

Depois de quatro edições dedicadas a homens, os organizadores decidiram ampliar o reconhecimento a mulheres que contribuíram para a cultura local. Zezé Colares foi escolhida para protagonizar a quinta edição.

Felicidade explica que a intenção é homenagear quatro mulheres ao longo das próximas edições, dando visibilidade a trajetórias que também ajudaram a construir a identidade cultural de Montes Claros.

“Está na hora de homenagear uma mulher, e o nome de Zezé Colares surgiu muito naturalmente”, conta.

A organizadora também defende a importância de reconhecer personalidades ainda em vida, permitindo que elas acompanhem de perto o reconhecimento da comunidade. Ela cita como exemplo Konstantin Christoff, que, mesmo enfrentando problemas de saúde, conseguiu participar da exposição realizada em sua homenagem.

“As pessoas vivas merecem ser saudadas, cumprimentadas e reconhecidas também. A homenagem pós-morte é muito importante, mas é muito diferente quando a pessoa consegue sentir de perto o carinho da comunidade”, ressalta.

Uma homenagem à trajetória do folclore em Montes Claros

Jaqueline Pimenta de Carvalho. Foto: Larissa Durães

A importância de Zezé Colares para a cultura local também é destacada por Jaqueline Pimenta de Carvalho, diretora artística do Grupo Banzé e representante da família de Zezé.

Segundo Jaqueline, a homenagem reconhece uma trajetória dedicada à preservação e à divulgação do patrimônio cultural de Montes Claros e do Norte de Minas, levando manifestações tradicionais para diferentes regiões do Brasil e também para o exterior.

“Zezé é um ícone da cultura em Montes Claros, uma pessoa que realmente lutou pela cultura, pelo folclore. Ela sempre esteve à frente para levar todo o nosso acervo, o nosso patrimônio cultural, tanto no Brasil quanto no exterior”, afirma.

O Grupo Banzé, fundado em 1968 no Conservatório de Música Lourenço Fernandes, também integra esse legado. O grupo se aproxima de seis décadas de atuação e, ao longo de sua trajetória, participou de viagens internacionais, festivais de folclore e apresentações em diferentes cidades brasileiras.

Após a morte de Zezé Colares, Jaqueline e o filho, Gustavo Colares, neto de Zezé, assumiram a continuidade do trabalho.

“Com a morte de Dona Zezé, e ela esteve doente por muito tempo, nós demos continuidade a esse trabalho, sempre com muito esforço”, explica Jaqueline.

Entre os projetos ligados ao grupo está a manutenção do Museu do Folclore e Tradições Mineiras, que reúne peças e documentos relacionados à cultura regional. A expectativa é que o museu seja reaberto em um novo espaço, cuja cessão ao município foi aprovada pelo Estado.

Da imprensa às artes plásticas

O Daqui por Diante também amplia a ideia tradicional de quem pode participar de uma exposição de arte. Além de artistas plásticos, o projeto reúne profissionais de diferentes áreas ligadas à criação, como jornalistas, escritores, fotógrafos e publicitários.

Para Felicidade, essa diversidade é uma das forças da iniciativa.

“Montes Claros tem muita gente criativa. Montes Claros é uma cidade especial”, afirma.

Entre as obras que marcaram sua trajetória no projeto está uma criação do artista Ucho Ribeiro para a edição dedicada a Guimarães Rosa. A partir de uma moringa, ele desenvolveu uma obra inspirada no universo do escritor.

A frase “O sertão mora dentro da gente” fazia parte da criação, que, segundo Felicidade, ganhou ainda outros elementos no interior do recipiente, formando uma representação simbólica da riqueza existente dentro de cada pessoa.

Acessibilidade passa a integrar o projeto

A inclusão também ganhou espaço entre as ações do Daqui por Diante. As atividades voltadas a pessoas com deficiência visual começaram na edição dedicada a Elias Siufi, e passaram a fazer parte da proposta do projeto.

“O processo de inclusão dessas pessoas em nossa comunidade, nas artes e nos eventos é mais do que necessário”, afirma Felicidade.

Para a quinta edição, a organização buscou parceria com o CAPS, em Montes Claros, para contribuir com recursos de acessibilidade, incluindo a produção de mapas táteis.

A programação também prevê visitas guiadas para pessoas com deficiência visual, atividades educativas para alunos da rede pública, palestra, visita mediada e uma oficina gratuita de dança folclórica.

A intenção é fazer com que a exposição seja mais do que um espaço de contemplação das obras, tornando-se também um ambiente de formação, inclusão e contato com a cultura.

Arte e solidariedade

Além do aspecto cultural, a quinta edição do Daqui por Diante terá uma frente social. Parte dos recursos arrecadados com a venda dos pandeiros será destinada ao Conselho Deliberativo das Casas da Amizade de Montes Claros.

Vandete Gomes. Foto: Larissa Durães

De acordo com Vandete Gomes, presidente do Conselho Deliberativo, 20% da arrecadação será destinada às ações de assistência desenvolvidas pela entidade.

Atualmente, Montes Claros conta com oito clubes ligados às Casas da Amizade. Entre as iniciativas mantidas pela organização está um banco de cadeiras de rodas, que atende tanto pessoas que necessitam do equipamento de forma permanente quanto aquelas que precisam utilizá-lo temporariamente.

“O Conselho Deliberativo tem um banco de cadeira de rodas que a gente doa para quem não tem condição e vai usar por muito tempo e a gente empresta provisoriamente para aquela pessoa que acidentou”, explica Vandete.

Segundo ela, cerca de 200 cadeiras de rodas estão atualmente emprestadas em Montes Claros. O trabalho também inclui outros equipamentos, como andadores, cadeiras de banho, muletas, tipoias e materiais ortopédicos.

Durante as visitas às famílias, os voluntários identificam ainda outras necessidades, como alimentos e fraldas.

“Muitas das vezes você percebe que a necessidade não era só da cadeira de rodas. É de uma cesta básica, é de uma fralda, então a gente faz todo esse trabalho”, afirma.

Para Vandete, a parceria entre cultura e assistência social amplia o impacto da iniciativa.

“Além de estar levando o nome de Zezé Colares, através do pandeiro, está ajudando outras famílias, a comunidade em si de Montes Claros”, destaca.

A própria presidente pretende participar da exposição como artista e produzir um pandeiro inspirado no meio rural e em elementos da cultura e do folclore.

Memória que se transforma em arte

Ao chegar à quinta edição, o Daqui por Diante mantém a proposta que deu origem ao projeto: transformar objetos cotidianos em instrumentos de criação e, ao mesmo tempo, utilizar a arte como ferramenta de preservação da memória.

A homenagem a Zezé Colares amplia esse propósito ao reconhecer a trajetória de uma mulher ligada à pesquisa, ao folclore e à valorização das tradições de Montes Claros e do Norte de Minas.

Fundadora do Grupo Folclórico Banzé, Maria José Colares de Araújo Moreira, conhecida como Zezé Colares. Foto: Internet

Com 100 artistas, ações de acessibilidade, programação educativa e uma frente de solidariedade, a edição de 2026 pretende aproximar diferentes públicos da produção cultural e reforçar a relação entre arte contemporânea, patrimônio e identidade regional.

Para Felicidade Tupinambá, o objetivo é seguir avançando sem perder de vista a proposta original do projeto.

“A gente quer continuar nessa estrada, fazendo esse tipo de evento e correspondendo ao nosso propósito primeiro, que é reconhecer e não deixar que pessoas tão importantes caiam no esquecimento”, conclui.

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Imagens: Larissa Durães

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