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No domingo assisti ao novo filme de He-Man (2026), percebi que a história tinha despertado em mim uma reflexão muito maior do que a disputa entre heróis e vilões. Em vez de pensar apenas nos efeitos especiais toscos ou na nostalgia que ninguém aguenta mais sendo empurrado e forçado por Hollywood, fiquei pensando na forma como construímos a masculinidade e no quanto essa construção ainda cobra um preço alto da saúde mental dos homens.
Durante décadas, o He-Man representou um ideal de força quase inalcançável: o homem musculoso, destemido, que sempre sabe o que fazer e nunca demonstra fragilidade. Mas a única coisa que torna esse filme interessante, é justamente a ousadia de brincar com a masculinidade do personagem principal (Adam). Vivenciamos que ele mesmo quando criança, tinha sua personalidade e sensibilidade, mas que todos ao redor debocharam e esperavam que ele fosse outra pessoa, o que o sufocou, mas mesmo assim sua personalidade deu espaço para um homem que lida de frente com suas emoções, mesmo quando vira uma montanha de músculos.
Ainda hoje, muitos meninos crescem ouvindo que precisam ser fortes o tempo todo, que não podem demonstrar medo, insegurança ou tristeza. Existe uma cobrança silenciosa para que sejam heterossexuais, dominantes e emocionalmente inabaláveis, como se qualquer característica fora desse padrão colocasse sua masculinidade em dúvida, essa pressão começa muito cedo. Inclusive o pai do Adam diz a ele que o tratava com dureza, porque tinha medo do que o mundo poderia fazer com ele, entendemos os pais preocupados, mas uma barreira sentimental também pode ser destrutiva, quanto qualquer perigo externo.
O jeito de falar, de brincar, de andar ou de demonstrar afeto frequentemente se torna motivo de piada ou repreensão. Em muitos casos, o problema nunca foi a criança, mas a expectativa dos adultos sobre como um menino “deveria” ser. Quando ensinamos alguém a esconder partes de si para ser aceito, também ensinamos que seus sentimentos precisam ser escondidos. Outro ponto que me chamou atenção é como estamos vivendo uma época em que a nostalgia parece já não ser suficiente. Durante anos, bastava trazer de volta personagens clássicos para conquistar o público. Hoje, isso já não funciona sozinho. As pessoas querem histórias que dialoguem com questões atuais, que tragam profundidade e humanidade.
Queremos protagonistas que sintam medo, falhem, tenham conflitos internos e aprendam a lidar com eles. Afinal, é muito mais fácil nos identificarmos com alguém que parece humano do que com alguém que parece invencível. Existe uma ideia de que homens sempre precisam resolver o desconforto emocional fazendo piadas. Durante muito tempo, rir de tudo foi uma estratégia para evitar conversas difíceis. Mas chega um momento em que o humor deixa de funcionar como proteção e passa apenas a esconder aquilo que realmente precisa ser dito. Fazer graça da própria dor pode aliviar por alguns minutos, mas não resolve o sofrimento, tem um diálogo onde o Adam e o Mentor, onde eles falam sobre sentimentos e provavelmente deve ter causado desconforto em alguns homens por ai.
Talvez uma das maiores dificuldades da masculinidade tradicional seja justamente falar sobre sentimentos. Muitos homens foram ensinados a identificar apenas duas emoções: a raiva e a felicidade. Isso cria adultos que muitas vezes nem conseguem nomear o que estão sentindo. Não porque não sintam, mas porque nunca aprenderam que era permitido sentir
Nesse contexto, não é surpreendente que o álcool apareça como uma forma de lidar com emoções e frustrações. Para muitos homens, beber se torna socialmente mais aceitável do que admitir que estão sofrendo. A bebida vira um anestésico emocional (o que é incentivado pelo sertanejo): ajuda a esquecer problemas por algumas horas, mas frequentemente aumenta conflitos familiares, favorece comportamentos impulsivos e adia a busca por ajuda.
Se quisermos construir uma sociedade mais saudável, precisamos permitir que os meninos cresçam sem a obrigação de provar masculinidade o tempo inteiro. Eles não precisam ser fortes a qualquer custo, esconder emoções ou recorrer ao álcool para suportar a vida. Precisam apenas ter o direito de serem humanos.