Foto: Divulgação
Montes Claros realizou, na última quinta-feira (31), uma homenagem em reconhecimento ao protagonismo e às trajetórias de mulheres negras que contribuem para o desenvolvimento da sociedade. O evento “Negras de Valor” foi realizado em alusão ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrado em 25 de julho.
A iniciativa teve como objetivo valorizar histórias de vida, fortalecer o compromisso com a igualdade racial, promover a reflexão sobre a importância da representatividade e reconhecer mulheres que atuam em diferentes áreas da sociedade.
O evento foi promovido pela Coordenadoria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (COOPIR), com o apoio do Município de Montes Claros, através da Secretaria de Desenvolvimento Social e em parceria com o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR) e o Observatório da Igualdade Racial.

Segundo a coordenadora da COOPIR, Maria Clara Fernandez de Moura, a escolha das homenageadas levou em consideração a atuação de cada uma na comunidade e sua contribuição para a valorização da cultura afro-brasileira e da identidade negra.
“As mulheres foram escolhidas com base na relevância de sua atuação na comunidade ou área de trabalho, sua contribuição na valorização da cultura afro-brasileira e identidade negra e no enfrentamento ao racismo”, explicou.
Para Maria Clara, apesar dos avanços nas políticas de igualdade racial, as mulheres negras ainda enfrentam desafios relacionados à desigualdade de oportunidades, representatividade e violência.
“As mulheres enfrentam muitos desafios ainda na busca por igualdade, pois vivemos em um país muito machista e patriarcal. Isso se torna ainda mais difícil quando falamos de mulheres negras, pois a interseção entre racismo e sexismo reproduz desigualdades que afetam suas vidas em diferentes áreas. Entre os principais desafios estão a baixa representatividade, dificuldade de acesso às oportunidades, vulnerabilidade social e violência”, afirmou.
A coordenadora também destacou que a COOPIR pretende ampliar as ações de promoção da igualdade racial ao longo do ano, com atividades educativas e parcerias com outras áreas da administração pública.
“Nosso objetivo é fortalecer políticas públicas que promovam a igualdade racial e combatam o racismo. Vamos realizar campanhas educativas de conscientização, trabalhar junto às políticas de educação, saúde e cultura, promover rodas de conversa nos territórios para fortalecer o protagonismo da população negra e ampliar a capacitação e o letramento racial dos profissionais do município”, disse.
Segundo ela, a proposta é garantir que a política de igualdade racial seja permanente dentro da gestão pública. “Nosso compromisso é fazer com que a política de igualdade racial seja contínua, transversal e presente na esfera pública”, concluiu.
Conselho destaca importância de dar visibilidade às trajetórias
A presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR), Rita Alessandra Souza dos Santos, destacou que a atuação do órgão é voltada para a construção e acompanhamento de políticas públicas de promoção da igualdade racial.
“O papel do Conselho é propor, acompanhar e fiscalizar as políticas públicas voltadas à promoção da igualdade racial”, afirmou.
Para Rita, a homenagem “Negras de Valor” foi criada para reconhecer mulheres que fazem a diferença em diversas áreas, mas que muitas vezes não recebem o devido reconhecimento.
“Esse evento busca resgatar a figura da mulher que muitas vezes dedica a vida às tarefas do lar, à saúde, à educação, ao esporte e à religiosidade, mas nunca recebe o reconhecimento que merece. O Conselho decidiu reconhecer e valorizar essas mulheres negras que fazem a diferença em nosso município”, destacou.
A presidente explicou ainda que a iniciativa busca combater a invisibilidade histórica enfrentada por mulheres negras.
“O objetivo do ‘Negras de Valor’ é mostrar para toda a sociedade que temos mulheres de coragem, com trajetórias marcantes, que muitas vezes ficam em um papel secundário. A maioria nunca é reconhecida e, pelo contrário, acaba sendo discriminada. O Conselho quer mostrar que nós, mulheres negras, somos capazes e temos competência para estar onde quisermos”, ressaltou.
Ao avaliar o resultado do evento, Rita afirmou que a homenagem cumpriu o objetivo de sensibilizar a comunidade e fortalecer o debate sobre igualdade racial.
“Foi uma sensação de missão cumprida. Conseguimos passar a mensagem que queríamos. As pessoas compreenderam a importância da causa e entenderam que o papel da mulher negra vai muito além dos estereótipos do passado”, disse.
As homenageadas foram:
– Iris Stefanelly, gerente da Unidade Básica de Saúde Village e Recanto das Águas;
– Célia Salgado Alves, professora de Geografia na rede municipal, ex-presidente do Conselho Municipal de Educação;
– Noêmia das Mercês Nogueira, líder da Comunidade Quilombola dos Nogueira, líder religiosa de terreiro;
– Letícia Imperatriz, cientista social, mestra em Desenvolvimento Social, com trajetória voltada aos Direitos Humanos, com destaque para as pautas de gênero, raça e diversidade;
– Solange Alves de Souza, conselheira do Conselho Municipal de Assistência Social e presidente do Fórum dos Usuários do SUAS do Norte de Minas;
– Maria de Fátima Soares dos Reis, presidente da Associação do Bairro Jardim Primavera e fundadora e coordenadora geral do Projeto Primavera na Ativa;
– Carla Marques, jornalista, repórter da Intertv;
– Luciana Axé, bacharel em Serviço Social, Mestra de Capoeira, dançante dos Catopês, contadora de histórias e militante do movimento negro desde a década de 1990.
Homenageada destaca importância do reconhecimento

Entre as homenageadas esteve Solange Alves de Souza, conselheira do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e presidente do Fórum dos Usuários do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Representante dos usuários do SUAS pelo Norte de Minas, ela afirmou que receber a homenagem representa o reconhecimento de uma trajetória dedicada ao trabalho social.
“Para mim, foi muito importante. Eu sou uma mulher preta, mãe solo de dez filhos, e ser reconhecida significa muito. Quando vejo uma mulher ou uma menina preta dizendo que se inspira em mim, fico muito feliz”, destacou.
Solange contou que sua atuação junto a pessoas em situação de vulnerabilidade fez com que se tornasse referência para muitas mulheres, principalmente vítimas de violência doméstica.
“Às vezes, de madrugada, a polícia bate na minha porta porque uma mulher agredida diz que só aceita ir se eu estiver com ela. Isso me traz uma gratificação enorme. Ser mulher preta neste país não é fácil, e quando você é mãe solo, é ainda mais difícil”, afirmou.
Ela também chamou atenção para as desigualdades enfrentadas por mulheres negras e destacou a importância do trabalho social para transformar realidades.
“Hoje acompanho cerca de 30 mulheres usuárias de drogas que também estão na prostituição. Dessas, aproximadamente 90% são mulheres pretas, sem perspectiva de vida. É por elas que continuamos lutando”, relatou.
Para Solange, o reconhecimento pode incentivar outras pessoas a participarem de ações voltadas à inclusão social.
“Espero que outras pessoas se inspirem e venham nos ajudar. Esse é um trabalho muito árduo, porque muitas dessas pessoas são invisíveis para a sociedade. Se eu conseguir tirar uma menina desse caminho, já valeu a pena”, concluiu.
A homenagem “Negras de Valor” reforçou a importância da valorização das mulheres negras e destacou trajetórias de resistência, liderança e transformação social em Montes Claros.