IPC de junho acelera custo de vida em Montes Claros, com alta puxada pela energia elétrica

Foto: Larissa Durães

Consumidores relatam dificuldade para equilibrar o orçamento

 

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de junho, registrado pelo Departamento de Economia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), apontou um aumento da pressão sobre o custo de vida das famílias de Montes Claros. O reajuste da tarifa de energia elétrica foi o principal responsável pela alta da inflação no mês, enquanto o aumento do seguro particular de veículos também contribuiu para elevar as despesas domésticas.

De acordo com a economista Vânia Vilas Bôas, o Grupo Habitação registrou alta de 2,23%, sendo o maior responsável pela elevação do índice, com contribuição de 0,47 ponto percentual.

“O principal destaque do mês foi o Grupo Habitação, que apresentou alta de 2,23%. Esse comportamento foi fortemente influenciado pelo reajuste de 5,16% na energia elétrica, um item de grande peso no orçamento das famílias. Por se tratar de um serviço essencial e de demanda inelástica, o aumento da tarifa exerce impacto direto sobre o poder de compra da população, sobretudo das famílias de menor renda”, explica.

Segundo a economista, além de reduzir a capacidade de consumo das famílias, o aumento da energia elétrica também tende a elevar os custos de produção, armazenamento e distribuição de bens e serviços, refletindo em diversos setores da economia.

Além da energia elétrica, o levantamento também apontou aumento de 4,70% no seguro particular de veículos. Apesar de o Grupo Transporte e Comunicação ter registrado queda de 0,32%, em razão da redução dos preços dos combustíveis, a alta dos seguros demonstra que os custos relacionados à mobilidade continuam em elevação.

“Esse comportamento pode estar relacionado ao aumento dos custos de reposição de peças, ao maior valor dos veículos, ao crescimento das despesas com sinistros e aos reajustes promovidos pelas seguradoras em função da maior exposição ao risco”, afirma Vânia Vilas Bôas.

A economista destaca que a redução nos preços da gasolina, do etanol e do óleo diesel ajudou a aliviar parte das pressões inflacionárias, mas não foi suficiente para compensar os reajustes em despesas consideradas praticamente obrigatórias, como energia elétrica e seguro de veículos.

Para julho, Vânia projeta uma desaceleração moderada da inflação. Segundo ela, a entrada da safra de hortifrutigranjeiros, o fim do período de maior demanda das festas juninas e a continuidade da queda dos combustíveis podem contribuir para reduzir a pressão sobre os preços.

Apesar da expectativa de desaceleração, a economista ressalta que ainda permanecem fatores de risco, como os efeitos acumulados do reajuste da energia elétrica, possíveis impactos das condições climáticas sobre a produção agrícola e a manutenção da pressão sobre alimentos básicos, especialmente carnes, ovos e hortaliças.

Em relação à cesta básica, a expectativa é de estabilidade ou leve redução dos preços, caso permaneçam as condições favoráveis para a oferta de alimentos in natura. Ainda assim, ela avalia que a queda dificilmente será suficiente para compensar o forte aumento acumulado no primeiro semestre, mantendo a alimentação entre os principais desafios para o orçamento das famílias montes-clarenses, principalmente daquelas com renda de até um salário mínimo.

Na prática, o aumento dos custos já é sentido pelos consumidores. O comerciante Mauro Ferrante de Oliveira afirma que o reajuste no seguro do carro impactou diretamente o orçamento da família.

“Todo ano a gente espera um reajuste, mas desta vez o valor ficou bem acima do que eu imaginava. O carro é uma necessidade para o trabalho e para a família, então não dá para ficar sem o seguro. Acabamos cortando outros gastos para conseguir manter essa proteção, porque qualquer imprevisto pode sair muito mais caro”, lamenta.

A cabeleireira Cláudia Inês Santos Silva, que mora com outras três pessoas, também percebe o aumento das despesas no dia a dia. Foto: arquivo pessoal

A cabeleireira Cláudia Inês Santos Silva, que mora com outras três pessoas, também percebe o aumento das despesas no dia a dia. Segundo ela, as contas de energia elétrica e água foram as que mais pesaram no orçamento nos últimos meses.

“Foi um aumento muito alto. Deu para notar principalmente na energia e na água. Está tudo muito caro”, relata.

Para conseguir equilibrar as finanças, Cláudia precisou mudar alguns hábitos dentro de casa.

“Com certeza tivemos que mudar alguns hábitos. Tem que driblar as contas, senão a gente não consegue pagar. Passamos a economizar mais energia, apagando as luzes e evitando desperdícios”, conta.

Outro gasto que surpreendeu a cabeleireira foi a conta de água.

“Lá em casa a conta de água veio um absurdo. Antes ficava entre R$ 70 e R$ 80, mas passou para R$ 180 e até R$ 190. Achei que fosse até um vazamento, porque nem todo mundo fica em casa durante o dia. O consumo continuou praticamente o mesmo, mas o valor veio muito mais alto”, afirma.

Na avaliação de Cláudia, o aumento dos preços afeta praticamente todas as despesas da casa.

“Hoje pesa tudo: alimentação, energia, água e as contas da casa. Está tudo caro. Não tem para onde correr”, diz.

Ela acredita que um reajuste nos salários ajudaria as famílias a enfrentar o aumento do custo de vida.

“O salário na cidade é muito baixo, deveria aumentar, porque está muito baixo para dar conta de todas as despesas. Muita gente precisa ter mais de um trabalho para conseguir fechar o orçamento no fim do mês, como no meu caso”, conclui.

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