Foto: Larissa Durães
O aumento dos custos operacionais tem afetado diretamente a rentabilidade das pequenas e médias empresas (PMEs) no Brasil. Levantamento da Serasa Experian aponta que 47% dos negócios classificaram a pressão dos custos como alta ou muito alta nos últimos 12 meses.
O impacto já aparece nos resultados financeiros: 49% das empresas relataram queda na margem de lucro, sendo 26% com perdas significativas. Apenas 14,7% conseguiram ampliar ganhos por meio do repasse de preços ao consumidor. A dificuldade é ainda maior em setores mais sensíveis, como o comércio, que representa 45% das empresas ouvidas.
Entre os principais fatores que pressionam os gastos estão o aumento de insumos e matéria-prima (37%), folha de pagamento (36%) e tributos (32%). Para o vice-presidente de pequenas e médias empresas da Serasa Experian, Cleber Genero, o cenário exige adaptação. “Nesse contexto, o uso de dados e inteligência torna-se estratégico para melhorar a eficiência e garantir a sustentabilidade dos negócios”, afirma.
Impactos no comércio local
Em Montes Claros, o reflexo desse cenário já é sentido no comércio varejista. A empresária Aparecida de Medeiros Leite, do setor de confecções, relata que o aumento dos custos, especialmente impulsionado pela alta do diesel, tem reduzido as margens e afetado diretamente as vendas.
“Com o impacto da economia e o aumento do diesel, os fornecedores repassam os custos, e a gente também precisa repassar. Ou a gente aumenta o preço, ou reduz a margem para conseguir vender”, explica.
Segundo ela, a queda no consumo é evidente. “As pessoas estão consumindo menos. A gente não tem um levantamento exato, mas acredito em uma queda de cerca de 30% entre dezembro até este mês. O cenário está bem pesado”, afirma.
A empresária também destaca a insegurança dos consumidores diante do cenário econômico. “Muitas clientes dizem que preferem esperar, porque não sabem como a situação da guerra vai evoluir. Há um receio de assumir compromissos, principalmente entre famílias que dependem do agro”, diz.
Outro reflexo é o aumento das compras parceladas. “Hoje, o parcelamento cresceu muito. O cliente divide em oito, dez vezes, o que mostra essa dificuldade de pagamento à vista”, observa.
Apesar das dificuldades, ela mantém expectativa de melhora. “A tendência é que o cenário melhore com o tempo. Existe uma cautela, mas também uma esperança de recuperação”, afirma.
Consumo retraído e novos desafios
Para o vice-presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Montes Claros (ACI), Jairo Bahia, o cenário atual combina aumento de custos com retração do consumo, o que amplia os desafios para os empresários.
“A percepção hoje é de um comércio mais retraído. As pessoas estão preocupadas com o cenário econômico e acabam reduzindo o consumo, principalmente de itens não essenciais”, explica.
Segundo ele, fatores externos, como instabilidades internacionais, influenciam diretamente esse comportamento. “Não é apenas o aumento de custos, mas a incerteza sobre o futuro que faz o consumidor gastar menos”, afirma.
Embora o aumento do combustível impacte toda a cadeia produtiva, Bahia avalia que o principal problema, neste momento, é a queda na demanda. “O transporte influencia, mas o que pesa mais é a redução do consumo”, pontua.
Ele também alerta para possíveis aumentos de custos com mudanças nas relações de trabalho. “Alterações nas escalas podem exigir mais contratações, o que eleva os custos das empresas”, diz.
Concorrência ampliada
Além da retração do consumo, o comércio enfrenta novas formas de concorrência. “Hoje, o concorrente não é apenas a loja ao lado. Existe uma disputa forte com o comércio online, grandes plataformas e até influenciadores digitais”, destaca.
Outro fator que tem preocupado o setor é o crescimento dos jogos de azar online. “Parte do dinheiro que poderia ir para o comércio está sendo direcionada para esse tipo de atividade, o que reduz ainda mais o consumo”, afirma.
Diante desse cenário, empresários enfrentam o desafio de equilibrar preços e competitividade. “Muitas vezes é preciso aumentar o preço por causa dos custos, mas isso pode afastar o cliente. Então, queda nas vendas e aumento de custos acabam acontecendo ao mesmo tempo”, explica.
Apoio e estratégias
Para enfrentar esse ambiente desafiador, a ACI tem promovido ações voltadas ao fortalecimento dos negócios locais. “Realizamos encontros como cafés empresariais para levar conhecimento e discutir soluções práticas para o dia a dia”, afirma Bahia.
Temas como vendas online, ferramentas digitais e inteligência artificial estão entre os principais focos. “Quem não acompanhar essas mudanças vai perder competitividade”, ressalta.
A entidade também aposta no networking como estratégia para estimular a economia regional. “Criamos um ambiente para que empresas locais façam negócios entre si, troquem experiências e gerem oportunidades”, explica.
Além disso, há iniciativas de integração com o setor industrial. “Promovemos encontros para preparar os empresários locais para atender demandas de indústrias, seja em processos, documentação ou prestação de serviços”, diz.
Para o vice-presidente da ACI, a adaptação é essencial. “São desafios diferentes para cada setor, mas o caminho passa por informação, conexão e capacidade de se reinventar”, conclui.
*Com informações do Serasa Experian