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Lembra quando, há um tempo, viralizou uma enquete na internet perguntando às mulheres se elas preferiam encontrar um homem ou um urso na floresta? Pois bem, o filme desta semana ajuda a entender por que tantas mulheres (e, diga-se de passagem, pais de meninas) escolheriam o urso.
Falo de A fonte da donzela (1960), dirigido por Ingmar Bergman. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na 33ª cerimônia, em 1961, o longa marca a primeira consagração internacional do diretor e se destaca pela forma crua e perturbadora com que aborda temas como fé, vingança e a presença do mal.
Ambientado na Suécia medieval, por volta do século XIII, o filme retrata um momento de transição religiosa entre o paganismo e o cristianismo. Nesse contexto, a narrativa acompanha uma família cristã extremamente devota liderada por Töre (Max von Sydow) e Märeta (Birgitta Valberg). A tragédia se instala quando Karin (Birgitta Pettersson), filha adolescente do casal, é atacada na floresta enquanto se dirige à igreja. A pedido do pai, ela deveria acender velas para a Virgem Maria, acompanhada de sua irmã postiça e serviçal da fazenda, Ingeri (Gunnel Lindblom), que acaba a abandonando no meio do caminho. Karin é violentada, assassinada e abandonada por três pastores de cabras que encontra na floresta. A cena é devastadora, não apenas pelo que mostra, mas pela forma como é construída, gerando uma profunda sensação de impotência e horror. Em um gesto cruel, os agressores buscam abrigo justamente na casa da família da jovem. Ao descobrirem o ocorrido, os pais executam sua vingança.
Em um dos momentos mais impactantes do filme, o pai, consumido pela dor, questiona Deus: como permitir tamanha brutalidade contra alguém tão inocente? A fé, até então inabalável, é colocada em xeque em uma sequência de cenas intensas e trágicas.
Ainda assim, apesar da dureza do tema, o filme impressiona pela estética. A fotografia é meticulosa, os enquadramentos evocam pinturas renascentistas e os movimentos de câmera são precisos. Tudo contribui para a construção de uma atmosfera densa e convincente, que nos transporta completamente para aquele universo medieval.
Em seus cerca de 90 minutos, a obra atravessa diversas camadas. A transição religiosa funciona como um pano de fundo potente, mas, para mim, o filme também dialoga com a vulnerabilidade da inocência feminina. Karin é jovem, alegre e ingênua. Em contraste, Ingeri — mais experiente — intui o perigo e hesita em seguir pela floresta. Karin, por outro lado, não desconfia. Quando os homens a encontram, ela cai em uma armadilha perversa, oferecendo gentileza e recebendo em troca a violência mais extrema.
A fonte da donzela é uma obra pesada, mas bastante reflexiva. Talvez o filme não ofereça respostas fáceis a questionamentos complexos sobre maldade e injustiça, mas deixa um incômodo persistente em relação a um mundo que frequentemente pune a ingenuidade.
A despeito disso, é um filme que vale a pena ser visto, pois além de sua força estética e narrativa, a obra também marca um momento importante na consagração do cinema internacional no Oscar. Fica, então, o convite para revisitá-lo e também para voltar os olhos aos próximos vencedores da categoria, entendendo como diferentes culturas traduzem, em imagens, suas próprias inquietações.
*Jéssica Cares