Foto: Divulgação
A primeira sessão do Cineclube da Unimontes estreou com o clássico Cidadão Kane (1941), de Orson Welles. Uma grande escolha, considerando o público-alvo da sessão, formado por alunos do curso de Cinema. Trata-se de uma obra extremamente importante, que inovou em diversos aspectos técnicos, além de trazer temas bastante sofisticados e ácidos para a época.
O filme conta a história de um grande magnata estadunidense do setor da comunicação, Charles Foster Kane. Na verdade, a narrativa se estrutura a partir da trajetória de um jornalista que tenta decifrar o significado da última palavra dita por Kane antes de morrer: “Rosebud”, e é durante essa investigação que descobrimos diferentes momentos da vida do personagem, desde sua infância, seus casamentos e sua trajetória política.
Tecnicamente, o filme é impecável, com transições impactantes e cenários muito bem planejados e executados (possivelmente influenciados pela experiência teatral de Welles). O roteiro também se mostra bastante perspicaz ao tangenciar questões da realidade dentro da ficção, como quando coloca em debate tensões ideológicas e expõe as contradições de um empresário que se apresenta como defensor da justiça social, dos pobres e dos oprimidos, mas que, ao mesmo tempo, acumula grandes riquezas e bens materiais.
É interessante notar os fatos e curiosidades em torno da obra que, na época de seu lançamento, na década de 1940, não obteve grande êxito de bilheteria. Ainda assim, posteriormente foi consagrada como uma das maiores obras da história do cinema em diversas listas e rankings especializados. É verdade que, hoje, ao assistirmos ao filme, talvez não fiquemos tão impressionados com recursos como a profundidade de campo ou os movimentos de câmera; no entanto, à época, tais elementos representavam inovações significativas.
Não é apenas no aspecto técnico que o filme impressiona, mas também em sua dimensão temática. Na minha leitura, dois temas principais atravessam a obra: a falta e o controle. Kane é uma figura profundamente controladora; por meio de seu império de imprensa, busca influenciar a opinião pública e consolidar seu poder, tanto que chega a se candidatar a um cargo político. Sua frustração surge justamente da impossibilidade de controlar tudo ao seu redor. Paralelamente, há a ideia de falta: um vazio que ele tenta preencher com bens materiais e riquezas, mas que nunca é plenamente satisfeito.
Nesse sentido, é interessante pensar na metáfora das estátuas ao longo do filme. Elas parecem condensar esses dois temas pois são figuras que emulam a forma humana, mas são imóveis e inorgânicas — objetos sobre os quais Kane pode exercer controle. Ao mesmo tempo, elas ocupam e preenchem o espaço de sua imensa mansão, como vemos tanto nas cenas em que a casa aparece repleta desses objetos quanto nos momentos finais, quando esse espaço começa a ser esvaziado.
Por fim, gostaria de refletir sobre o significado de “Rosebud”. Para mim, trata-se justamente daquilo que não pode ser recuperado: o passado. Kane, apesar de sua imensa riqueza, permanece marcado pela perda de uma experiência afetiva. “Rosebud” é o nome inscrito no trenó com o qual ele brincava antes de ser separado de sua família, no início do filme. Talvez represente um momento ao qual ele gostaria de retornar, ou simplesmente uma memória de inocência e afeto. De todo modo, a obra deixa um gosto amargo ao apresentar um personagem complexo e multifacetado, cuja vida é atravessada por ausências irreparáveis.
Por fim, acredito que a escolha do cineclube em abrir sua programação com Cidadão Kane foi extremamente acertada. Filmes clássicos são fundamentais para a formação de qualquer profissional de cinema e audiovisual, pois, ao contrário do que se pode pensar, continuam sendo fontes riquíssimas de aprendizado, além de apresentarem histórias instigantes.
Aguardando a próxima sessão.
*Jéssica Cares