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A última sessão do cineclube comentado foi marcada por filmes autorais que abordam, de maneira sensível, questões de memória e pertencimento. Na quinta-feira (19/03), o público acompanhou uma sessão dupla dedicada ao cinema brasileiro, com a exibição do curta-metragem Além Daqui, dirigido por Ângelo Pinheiro e produzido por Thetê Rocha, seguida do longa A Vida Secreta de Meus Três Homens, de Letícia Simões.
Além Daqui, produção montes-clarense, apresenta um retrato delicado sobre deslocamento e pertencimento, destacando a força de quem insiste em existir mesmo quando suas origens são desvalorizadas. O filme evidencia tanto a potência cultural e econômica de Montes Claros e do Norte de Minas quanto os estigmas enfrentados por pessoas do interior, frequentemente subestimadas por seu modo de vida simples.
Apesar de sua construção narrativa direta, marcada pela simplicidade de um cinema independente e autoral, o curta se encerra com uma mensagem potente de empoderamento e aceitação. Ao abordar a experiência migrante, o filme reforça a ideia de que migrar é, antes de tudo, um ato de coragem e resistência.
Já A Vida Secreta de Meus Três Homens se constrói como um mergulho nas memórias da realizadora e nas figuras masculinas de sua família, atravessadas pelo contexto da ditadura militar brasileira. O longa articula passado e subjetividade ao explorar feridas históricas e afetivas, revelando um país marcado por traumas ainda não resolvidos.
Esteticamente, o filme se aproxima de um cinema de fluxo, com ritmo contemplativo, planos longos e uma encenação que flerta com o teatral. A câmera, muitas vezes estática, reforça a dimensão introspectiva da narrativa. A força da obra reside, sobretudo, nas performances, que evocam um espaço híbrido entre palco e memória — como se estivéssemos adentrando a própria consciência da diretora.
O que aproxima os dois filmes, para além de suas diferenças formais, é a relevância de suas temáticas. Além Daqui utiliza o cinema como ferramenta de denúncia e afirmação identitária, sobretudo ao abordar o preconceito enfrentado por migrantes. O plano final, ambientado na rodoviária, é bastante simbólico pois evidencia a cidade como espaço de fluxo constante, onde todos merecem respeito.
Por sua vez, o longa de Letícia Simões investiga questões mais íntimas, como remorso, reconciliação e confronto com o passado. Surge, então, uma pergunta que atravessa o filme: se fosse possível dialogar com os fantasmas de nossa história, o que diríamos a eles?
Destaca-se ainda o uso expressivo da fotografia, marcada por cores intensas e um caráter lúdico que se afasta do naturalismo. O filme assume um tom onírico e por vezes surrealista, refletindo não apenas a natureza fragmentada da memória, mas também os próprios absurdos históricos vividos no país naquele período.
Por fim, ambos os filmes reafirmam o cinema como um espaço potente para a abordagem de temas densos e complexos. Longe de evitá-los, essas obras demonstram que a arte pode ser uma ferramenta fundamental de reflexão e elaboração coletiva. Fica, portanto, o apelo por uma melhor distribuição dessas produções, que, apesar de sua qualidade, ainda circulam de forma restrita, quando deveriam alcançar públicos muito mais amplos.
*Jéssica Cares