Representantes de associações de catadores, membros da comunidade acadêmica da UFMG e da prefeitura Foto: Ana Cláudia Mendes /UFMG
O projeto de extensão Reciclar e Transformar, da UFMG, lança nesta sexta-feira (12) uma série de vídeos educativos sobre coleta seletiva e o trabalho das associações de catadores de Montes Claros. A iniciativa foi precedida por um encontro realizado na segunda-feira (8), no campus da universidade, que reuniu representantes das entidades e marcou a etapa final de um trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos em apoio à consolidação dessas associações.
Coordenado pelo professor Giovanni Fonseca, o projeto produziu seis vídeos — incluindo uma versão infantil — com orientações sobre a separação correta do lixo seco e úmido, descarte de materiais perigosos, fluxo do processo de triagem e importância do trabalho dos catadores. A produção envolveu alunos da disciplina de Produção Audiovisual e contou com a participação direta de catadores, que integram as filmagens.
Segundo o coordenador, a iniciativa partiu de demandas recorrentes apresentadas pelas associações, sobretudo a respeito da má qualidade dos resíduos recebidos nos galpões, frequentemente contaminados por restos orgânicos e materiais inadequados. Ele explica que muitos desses problemas têm origem nos condomínios participantes do programa municipal Recicla os Montes. “As associações têm diversas demandas. Muitas delas são complexas e dependem de políticas públicas. O que identificamos é uma reclamação bastante comum sobre a qualidade dos resíduos que chegam, especialmente aqueles vindos dos condomínios”, afirmou.
Fonseca destaca que resíduos impróprios comprometem a triagem e colocam os trabalhadores em risco. “Esses resíduos chegam com muito material orgânico, excesso de comida, fraldas infantis e geriátricas, além de cacos de vidro, que colocam em risco as pessoas que manipulam. Um dos focos dos vídeos foi mostrar que a separação envolve contato manual e materiais perfurocortantes, que expõem os associados a risco biológico”, explicou. Ele reforça que o objetivo central é melhorar a qualidade e aumentar o volume de materiais recicláveis enviados. “O objetivo é aumentar o envio do que é reciclável e fazer com que moradores tomem consciência dos materiais corretos. Os vídeos trazem detalhadamente esses tipos.”
A campanha aposta em uma comunicação simplificada. “Focamos numa separação inicial: separar o seco do úmido. E mostramos que nem todo seco é reciclável. Aquela ideia de separar em várias categorias, muitas vezes, não funciona. A triagem detalhada é feita nos galpões”, afirmou. Segundo ele, a estratégia busca garantir mais eficácia e praticidade.
Cinco associações participaram da iniciativa: Montesul, 3 R’s Soluções Sustentáveis, Ecogalpão, Associação de Catadores de Recicláveis da Região do Grande Village e Associação Comunitária de Tabuas, localizada na zona rural. O material será incorporado ao programa Recicla aos Montes, da prefeitura, que mantém parceria com cerca de 80 condomínios. A coordenadora do programa Lixo Zero, Maíra Prates e Silva, destaca que os vídeos reforçarão as ações de educação ambiental e orientarão moradores sobre a separação adequada.
Para Luíza Nunes, gestora da Associação Comunitária de Tabuas, os vídeos facilitarão o diálogo com a comunidade. “Agora podemos compartilhar esse conteúdo pelo celular e conscientizar mais pessoas sobre a reciclagem e o papel dos catadores”, afirmou.

A catadora Laura Beatriz Saraiva Lima, que atua há dois anos no galpão onde trabalha atualmente e afirma viver da reciclagem “desde quando eu nasci”, relata que a separação incorreta dos resíduos segue sendo um dos maiores entraves à rotina de trabalho. “As maiores dificuldades que a gente encontra é na busca pela reciclagem, procurar nas casas. Se tivesse a separação adequada do lixo, do molhado e da reciclagem, seria bem mais fácil”, disse. Ela acredita que os vídeos cumprirão papel importante na orientação da população. “A importância dos vídeos é que vai conscientizar as pessoas do que é reciclagem de verdade e facilitar mais para os catadores”, afirmou.
Laura reconhece que houve avanços na parceria com os condomínios, mas destaca que ainda há erros frequentes. “Eles realmente separam muito a reciclagem, mas ainda misturam coisas”, disse, citando especialmente resíduos orgânicos e itens perigosos. “Vidros, seringas… ainda colocam muita coisa assim”, relatou.
Ela destacou o apoio da prefeitura, que disponibiliza caminhões para a coleta diretamente nas casas dos catadores, “o que facilita o trabalho”. Também ressaltou a importância da parceria com a universidade, afirmando que a formação dos estudantes amplia a consciência ambiental e ajuda a disseminar o conhecimento entre os jovens e suas redes.
O síndico Carlos Roberto da Silva, com 17 anos de atuação, afirma que a participação dos moradores na coleta seletiva aumentou nos últimos anos, impulsionada pelo apoio da prefeitura e pela maior divulgação de temas socioambientais nas mídias.
Contudo, ele relata que, mesmo com avanços, alguns moradores ainda têm dificuldade de adaptação. “Um ou outro ainda não está totalmente antenado nisso, mas a grande maioria está envolvida”, disse. Para ele, o impacto social também é relevante. “Além da consciência ambiental, a gente consegue ajudar pessoas carentes que utilizam dessa arte para sobrevivência financeira. Essa é uma parte muito bacana”, destacou.
Silva acredita que os novos vídeos da UFMG contribuirão para reduzir erros na separação dos resíduos. “Tenho certeza disso. Hoje a sociedade está muito voltada para assistir vídeos curtos, e voltados especificamente para esse tema, eles ajudam muito”, afirmou. Segundo ele, a falta de conhecimento ainda é um obstáculo. “Às vezes a pessoa vê os contêineres separados, mas ainda mistura lixo orgânico com recicláveis, não por maldade, mas por falta de conhecimento”, completou. Ele avalia que o material audiovisual deve reforçar a conscientização. “O vídeo, mostrando todas as etapas, acaba internalizando mais essa necessidade de fazer a separação para ajudar”, concluiu.
A divulgação será feita a partir de hoje no Instagram @lapex.ufmg e enviada aos condomínios parceiros da prefeitura. Depois, às segundas, quartas e sextas até o dia 24/12.