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O filme, de uma hora e vinte minutos de duração, começa de maneira direta, sem rodeios: uma corrida de carros termina em tragédia quando um dos veículos despenca de uma ponte e cai no rio. Mary Henry, interpretada por Candace Hilligoss, é a única sobrevivente do acidente, saindo ilesa do rio. Depois do ocorrido, Mary se muda para outra cidade para trabalhar como organista em uma igreja. É interessante notar que sua relação com o trabalho não é religiosa, mas estritamente profissional. Ainda assim, desde sua chegada, acontecimentos estranhos passam a cercar a protagonista, e ela começa a ter visões de um homem que a observa à distância e sente uma atração inexplicável por um parque de diversões abandonado na cidade.
À medida que a narrativa avança, as visões não cessam; pelo contrário, tornam-se cada vez mais intensas. Nesse ponto, o espectador passa a se questionar se aquilo que Mary presencia é real ou apenas fruto de uma mente traumatizada e paranoica. Uma sequência bastante interessante ocorre quando, de repente, a imagem se torna turva e instável. A partir de então, Mary parece tornar-se invisível e as pessoas não conseguem mais vê-la ou ouvi-la, tampouco ela consegue interagir com ninguém ao seu redor. É nesse instante que o filme assume de maneira mais evidente seu tom de terror e surrealismo.
Grande parte da força do filme, no entanto, reside em seu plot twist. Embora não seja particularmente difícil de deduzir ao longo da narrativa, sua execução é bastante engenhosa. No desfecho, quando as almas do parque macabro finalmente alcançam Mary, um corte seco revela que seu corpo jamais saiu do carro que afundou no rio no início da história.
Ou seja, Mary nunca sobreviveu de fato ao acidente.
Tudo o que acompanhamos ao longo do filme pode ser interpretado como sua experiência em uma espécie de purgatório, isto é, um estado liminar entre a vida e a morte. Nesse sentido, a figura misteriosa que a persegue pode ser facilmente interpretada como a própria morte tentando alcançá-la. Da mesma forma, os momentos em que ninguém consegue vê-la ou ouvi-la podem representar a resistência final de sua consciência antes de aceitar definitivamente sua condição espectral.
É evidente que o filme se abre a um grande leque de interpretações, mas creio que a obra dialoga diretamente com temas como solidão, sensação de não pertencimento e até mesmo um certo estado de adoecimento mental. A protagonista lida com um paradoxo complexo de se isolar do mundo e temer a solidão ao mesmo tempo.
Enfim, apesar de ser um filme de baixo orçamento e apresentar algumas limitações técnicas, a obra compensa com criatividade e soluções visuais valiosas. Há, por exemplo, um toque bastante metafórico no fato de o homem-fantasma que persegue a protagonista — possivelmente a própria morte — ser interpretado pelo próprio diretor, Herk Harvey, como se ele controlasse aquele mundo dentro e fora da tela.
Há também planos muito bonitos, marcados por um uso expressivo de luz e sombra, especialmente nas cenas do parque abandonado, que por si só criam uma atmosfera sombria. Soma-se a isso a trilha sonora carregada e intensa, que se aproveita de maneira muito inteligente do fato de o órgão ser um instrumento de sonoridade grave e frequentemente associado ao terror. Em vários momentos, o filme assume uma aura surrealista que lembra o estilo que mais tarde se tornaria característico do cinema de David Lynch. Um clássico que certamente merece ser revisitado.