Polícia Civil conclui inquérito sobre assassinato de jovem em Montes Claros

Em coletiva com a imprensa a delegada Francielle Drumond, da Polícia Militar de Minas Gerais. Foto: Larissa Durães

Suspeito de 21 anos foi indiciado por homicídio qualificado; movimento LGBTQIAPN cobra reflexão sobre violência estrutural

 

A Polícia Civil de Minas Gerais concluiu a investigação sobre o homicídio de um homem de 29 anos, ocorrido no dia 9 de fevereiro, no bairro Delfino Magalhães, em Montes Claros. O suspeito do crime, de 21 anos, foi preso em flagrante e indiciado por homicídio qualificado. O inquérito já foi encaminhado ao Ministério Público.

De acordo com a delegada Francielle Drumond, a Polícia Militar de Minas Gerais foi acionada no dia do crime e realizou os primeiros levantamentos no local. Imagens de câmeras de segurança analisadas durante a apuração registraram autor e vítima caminhando juntos antes do homicídio, o que contribuiu para a rápida identificação e prisão do investigado.

“O autor foi ouvido na delegacia e confessou os fatos. Ele informou que encontrou a vítima de forma casual, que mantiveram relação sexual e, após um desentendimento, desferiu um golpe fatal no pescoço dela”, afirmou a delegada. Segundo as investigações, o suspeito estava armado com uma faca.

Durante o inquérito, foram realizadas diversas diligências, incluindo oitivas de familiares da vítima e do autor, além de policiais militares que tiveram o primeiro contato com o investigado. “As investigações confirmaram que eles se encontraram de forma casual e que foi um encontro trágico que resultou no óbito da vítima”, declarou a autoridade policial.

A vítima, identificada como Newellington Xavier, conhecido como Neew Xavier, tinha 29 anos e não possuía antecedentes criminais. Já o autor, de 21 anos, tinha passagens por crimes patrimoniais e por tráfico de drogas.

Sobre informações de que teria havido pagamento em dinheiro pela relação sexual, a delegada explicou que o caso foi analisado em toda a sua complexidade. “O autor foi ouvido por duas vezes. Em uma primeira versão, alegou que a motivação teria sido o não pagamento. Em outra, relatou que houve um desentendimento, que entraram em luta corporal e que, após o homicídio, teria subtraído o dinheiro da vítima”, disse.

Ainda conforme a Polícia Civil, as imagens de segurança foram fundamentais para o esclarecimento do caso. “Elas contribuíram bastante e demonstram que foi um encontro casual e trágico entre os dois. No entanto, a Polícia Civil dispõe de outras técnicas de investigação que poderiam levar à autoria”, ressaltou.

O suspeito foi indiciado por homicídio qualificado por motivo torpe e pelo recurso que dificultou a defesa da vítima. Caso seja condenado, poderá cumprir pena de até 30 anos de prisão.

Movimento LGBTQIAPN cobra reflexão sobre violência estrutural

Após a coletiva que anunciou a conclusão do inquérito, a representante da família da vítima, Letícia Imperatriz, mestra em Desenvolvimento Social, divulgou nota em nome do movimento LGBTQIAPN. “Agradecemos à Polícia Civil pela dedicação na condução das investigações e pela devolutiva à sociedade, tão necessária diante da comoção e da dor que marcaram esse crime. Reconhecemos, em especial, a atuação da delegada Dra. Francielle, cuja atenção e sensibilidade foram fundamentais ao longo do caso”, declarou.

Apesar do reconhecimento, a representante apontou questionamentos. “Entretanto, mesmo diante dos esclarecimentos apresentados, permanecem reflexões que não podem ser ignoradas. Causa estranheza que um desentendimento relacionado a um programa tenha resultado em tamanha violência, especialmente quando se afirmar que o autor teria levado consigo uma faca. Também nos inquieta o fato de que, segundo informações, familiares teriam tido conhecimento dos fatos e não realizaram denúncia imediata, bem como o histórico de acompanhamento psicológico e uso de medicação por parte do autor, conforme relatos de conhecidos”, afirmou.

Ela destacou que os pontos levantados não buscam relativizar responsabilidades, mas ampliar o debate social. “Não levantamos esses pontos para relativizar responsabilidades, mas para ampliar a reflexão social sobre como situações de vulnerabilidade, negligência e silêncio podem contribuir para desfechos trágicos”, disse.

Na nota, o movimento também chamou atenção para o cenário nacional. “Infelizmente, no Brasil, tem sido recorrente que pessoas LGBTQIAPN sejam assassinadas, e que a justificativa apresentada esteja associada a desentendimentos em programas sexuais. Isso revela não apenas violência individual, mas um contexto estrutural de preconceito, desvalorização da vida e naturalização da brutalidade contra nossa comunidade”, concluiu.

No entanto, a delegada não confirma que o caso se trate de crime de ódio. “Geralmente, crimes motivados por ódio apresentam maior grau de violência e crueldade. Pelo que foi apurado até o momento, tudo indica que se trata de um crime de ocasião”, finalizou.

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