Polícia Civil indicia médica por homicídio doloso após morte de paciente em procedimento estético em Montes Claros

Na foto estão o Delegado regional Bruno Rezende da Silveira, a delegada Francielle Drumond, responsável pela investigação e o chefe do 11º Departamento de Polícia Civil em Montes Claros, delegado-geral Jurandir Rodrigues César Filho. Foto: Larissa Durães

Investigação aponta sequência de erros, falta de habilitação e ausência de estrutura adequada durante cirurgia estética realizada em consultório particular

 

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) apresentou, nesta quarta-feira (5), em coletiva de imprensa, o resultado das investigações sobre a morte de uma mulher de 42 anos ocorrida durante um procedimento cirúrgico estético em Montes Claros, em dezembro do ano passado. Ao final do inquérito, a médica responsável pelo procedimento, de 28 anos, foi indiciada por homicídio doloso, na modalidade de dolo eventual.

A coletiva foi realizada na sede da 11ª Região Integrada de Segurança Pública (RISP) e reuniu autoridades da Polícia Civil que atuaram diretamente no caso.

O chefe do 11º Departamento de Polícia Civil em Montes Claros, delegado-geral Jurandir Rodrigues César Filho, destacou a importância da transparência e da conclusão das investigações.
“Estamos aqui para apresentar mais um trabalho de excelência da Polícia Civil, dando publicidade a todos os atos que permitiram concluir essa investigação. Trata-se de um fato grave, que causou grande comoção social, envolvendo uma pessoa que buscava qualidade de vida e acabou perdendo a própria vida”, afirmou.

Em seguida, o delegado regional Bruno Rezende da Silveira ressaltou o caráter preventivo da divulgação do caso.
“São situações que, muitas vezes, não chegam ao conhecimento da polícia, mas causam graves prejuízos e violam a integridade física das pessoas. É fundamental que a sociedade cobre, procure profissionais qualificados e certificados, e entenda que erros e condutas inadequadas têm consequências, inclusive criminais”, disse.

A delegada Francielle Drumond, responsável pela investigação, detalhou os fatos apurados pela equipe da Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Pessoa. Segundo ela, o caso não se resume a um erro médico isolado.
“O que foi apurado é que não se tratou de uma mera fatalidade. Foi uma sequência de erros graves, decorrentes de escolhas arriscadas e temerárias feitas pela profissional”, afirmou.

De acordo com a investigação, a vítima morreu no dia 11 de dezembro, durante a realização de um procedimento estético denominado “mini-lipo”, feito em um consultório médico. O laudo de necropsia apontou que a causa da morte foi um choque hemorrágico provocado pela perfuração da artéria femoral direita.

“A perícia demonstrou que a cânula utilizada para retirada de gordura foi introduzida de forma totalmente desproporcional, atingindo a artéria femoral de trás para frente, o que configura um erro gravíssimo na execução do procedimento”, explicou a delegada.

Ainda conforme a Polícia Civil, a própria médica administrou propofol e outros anestésicos na paciente, sem a presença de um anestesista. O Conselho Federal de Medicina (CFM) determina que esse tipo de sedação intravenosa só pode ser realizado por profissional habilitado e com monitorização contínua do paciente, o que não ocorreu.

“O consultório não possuía carrinho de parada, desfibrilador nem equipamentos de monitorização. Houve improviso no atendimento de emergência, com a busca de equipamentos emprestados em consultórios vizinhos”, destacou Francielle.

Durante o procedimento, realizado com a paciente em decúbito ventral (posição de barriga para baixo), houve uma parada cardiorrespiratória. Em depoimento, a médica afirmou que só percebeu a gravidade da situação quando a paciente deixou de reagir e apresentava sinais de cianose.

O Samu foi acionado e realizou manobras de reanimação, mas a vítima já estava em óbito. A delegada também ressaltou que o socorro foi prejudicado por falhas no prédio onde funcionava o consultório.
“A equipe do Samu relatou dificuldade de acesso, atraso no elevador e falta de informação por parte da recepção, o que comprometeu ainda mais o atendimento”, disse.

Outro ponto destacado foi a falta de habilitação da médica. Segundo a polícia, ela tinha apenas um ano de formada, não possuía residência médica nem pós-graduação concluída na área cirúrgica, embora tenha apresentado documentos de cursos e especializações não finalizados.

Diante do conjunto de provas — depoimentos, laudos periciais e normas técnicas —, a Polícia Civil concluiu pelo indiciamento da médica por homicídio doloso, na modalidade de dolo eventual.
“Embora ela não tenha desejado o resultado morte, assumiu o risco ao fazer todas essas escolhas temerárias”, afirmou a delegada.

A médica vai responder ao processo em liberdade. Se condenada, a pena pode variar de seis a 20 anos de prisão.

Ao final, a Polícia Civil fez um alerta à população.
“É fundamental que as pessoas busquem profissionais devidamente habilitados e ambientes preparados para lidar com intercorrências. Procedimentos estéticos também envolvem riscos e precisam ser realizados com responsabilidade”, concluiu Francielle Drumond.

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