Foto: Larissa Durães
Após pouco mais de dois meses de acolhimento em Montes Claros, o ginásio Ana Lopes foi desativado neste sábado (31) com a saída do grupo de 57 venezuelanos, entre eles 22 crianças, que foi transferido para Belo Horizonte após manifestar o desejo de deixar a cidade. Durante a permanência no município, os migrantes receberam alimentação, abrigo, atendimento em saúde e assistência social, além de acompanhamento da prefeitura na busca por alternativas de moradia e inserção social.
O secretário de Desenvolvimento Social de Montes Claros, André Kevin, explicou os encaminhamentos adotados pelo município em relação ao grupo de venezuelanos acolhido. Segundo ele, os migrantes chegaram a Montes Claros no dia 15 de novembro de 2025 e permaneceram no município por dois meses e quinze dias.
De acordo com o secretário, o alojamento no ginásio foi uma medida temporária. “Desde o início, nós trabalhamos com eles a possibilidade de mudança para uma moradia digna, que não fosse o ginásio, que era algo provisório, e eles sempre estiveram abertos a isso”, afirmou. Inicialmente, o grupo era composto por 51 pessoas, número que chegou a 57 após a chegada de mais seis venezuelanos.
A principal dificuldade, segundo André, foi encontrar um imóvel adequado dentro do perímetro urbano. “Ou os proprietários não queriam alugar para um grupo grande como esse, ou os imóveis não comportavam 57 pessoas”, explicou. Considerando a origem rural dos venezuelanos, a prefeitura passou a avaliar, junto com eles, a possibilidade de uma alternativa fora da área urbana e encontrou um sítio na zona rural, nas imediações do distrito de Nova Esperança, cujo proprietário aceitou alugá-lo ao município.
A mudança foi organizada rapidamente, a pedido do próprio grupo. “A gente não pode obrigá-los a aceitar nenhuma proposta. Eles têm o direito de ir, vir e permanecer. Mesmo assim, eles prontamente organizaram suas coisas e fizemos o traslado”, relatou. No entanto, após chegarem ao local, os venezuelanos se reuniram e decidiram que não permaneceriam no sítio. Segundo o secretário, eles alegaram que o local era distante da cidade, não tinha infraestrutura urbana, apresentava problemas como lama e mosquitos e não atendia às expectativas do grupo.
Diante disso, os venezuelanos manifestaram o desejo de seguir para Belo Horizonte, onde possuem familiares. “Eles não pediram para voltar para Montes Claros nem para o ginásio. O pedido foi para ir para BH”, destacou André Kevin. Embora a ideia inicial fosse realizar a viagem na semana seguinte, a prefeitura conseguiu mobilizar a logística para que o deslocamento ocorresse imediatamente. O município forneceu alimentação, com lanche e almoço, e realizou o embarque ainda no mesmo dia. “Eles já estão seguindo rumo a Belo Horizonte, e a Secretaria de Desenvolvimento Social de BH está em contato conosco para orientar sobre o local de desembarque e a acolhida inicial”, afirmou, acrescentando que a chegada estava prevista para por volta das 22h, no Terminal Central, onde a equipe da assistência social de Belo Horizonte faria o primeiro atendimento.
Sobre como o grupo chegou a Montes Claros, o secretário esclareceu que não houve comunicação prévia de outros municípios. Ele lembrou que a cidade já teve experiência anterior com o acolhimento de venezuelanos e que, segundo relatos de equipes da assistência social, do núcleo de direitos humanos e de organismos ligados à ONU, esses grupos têm o hábito de migrar com frequência. “Eles não costumam permanecer por muito tempo em uma mesma cidade”, disse. Segundo André Kevin, o próprio grupo relatou que estava em Itabuna, na Bahia, há cerca de dois anos antes de decidir vir para Montes Claros, mas a prefeitura daquele município não confirmou oficialmente essa informação nem comunicou a saída do grupo. “Eles chegaram de madrugada, em um sábado feriado, o que dificultou muito o nosso planejamento”, pontuou.
O secretário também comentou as dificuldades enfrentadas pela prefeitura para promover a inclusão social dos venezuelanos. “A maior dificuldade foi a adesão deles aos encaminhamentos de longo prazo, como emprego, moradia, matrícula das crianças na escola e até cuidados de saúde, como vacinação. Avançamos pouco porque não havia adesão”, afirmou. Ele acrescentou que o grupo recebe benefícios sociais, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e o Bolsa Família, administrados pela liderança indígena, e que isso acabou influenciando o modo de vida adotado. “Eles não tinham gastos com hospedagem e alimentação, porque tudo era fornecido pelo município, e isso dificultou ainda mais a inserção no mercado de trabalho”, avaliou.
Em relação à situação migratória, André garantiu que todos os venezuelanos estavam em situação regular no Brasil. “Nós conferimos tudo com a Polícia Federal. Todos têm documentação de refugiado, o que garante pleno direito de viver no Brasil, inclusive de ter carteira de trabalho”, explicou.
Questionado sobre a diferença de atenção entre migrantes e pessoas em situação de rua, o secretário afirmou que o município mantém uma rede estruturada de atendimento. “Montes Claros oferece serviços de assistência social e saúde compatíveis com o seu porte. Temos equipamentos públicos como o Centro Pop, que atende diariamente pessoas em situação de rua, oferecendo alimentação, higiene, documentação e acompanhamento social”, disse. Segundo ele, cerca de 150 pessoas são atendidas mensalmente nesses serviços.
Além disso, o município conta com o Núcleo de Apoio ao Migrante (NAM), que funciona na rodoviária. “Somente no ano passado, ajudamos mais de 400 pessoas a retornarem para suas cidades de origem, com contato prévio com a assistência social do destino e todo o cuidado necessário”, destacou. Há ainda um serviço de abrigamento que atende cerca de 50 pessoas por mês. “Não é só para quem está em situação de rua, mas também para migrantes. É um serviço que funciona 24 horas e permite o restabelecimento de vínculos familiares e encaminhamentos para trabalho”, concluiu.