2026 promete favorecer pequenos negócios. Foto: Larissa Durães
O ano de 2026 começa com boas perspectivas para os pequenos negócios no Brasil. O mercado financeiro revisou para baixo a previsão de inflação, segundo o Boletim Focus divulgado na última segunda-feira (12). A expectativa é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) feche o ano em 4,05%, abaixo da projeção anterior de 4,10%.
Caso a previsão se confirme, este será o quinto menor índice de inflação anual desde o início do Plano Real. Em 2025, o IPCA encerrou em 4,26%, dentro do teto da meta estabelecida pelo governo federal, de 4,5%. Para os próximos anos, o mercado projeta inflação ainda mais controlada: 3,80% em 2027 e 3,50% em 2028.
Segundo o presidente do Sebrae, Décio Lima, o cenário favorece o crescimento da economia, especialmente dos pequenos negócios. “Com inflação mais baixa, crescem a confiança, o consumo e o investimento, principalmente no setor que mais movimenta a economia brasileira”, afirmou.
Além do controle inflacionário, o mercado também prevê crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Para 2026, a estimativa é de alta de 1,8%. O mesmo percentual é esperado para 2027, com projeção de aceleração em 2028, quando o crescimento pode chegar a 2%.
Outro fator que gera otimismo é a possível redução da taxa básica de juros, a Selic. Atualmente em 15%, a expectativa é que o índice caia para 12,25% até o fim de 2026. A diminuição dos juros tende a baratear o crédito, estimulando o consumo e os investimentos.
No mercado de trabalho, os pequenos negócios seguem como principais geradores de emprego. De janeiro a novembro de 2025, mais de 1,3 milhão de vagas com carteira assinada foram criadas por micro e pequenas empresas, segundo dados do Sebrae com base no Caged. Somente em novembro, sete em cada dez novos postos formais foram gerados por esse segmento, superando todo o acumulado de 2024, quando foram registradas 1,22 milhão de contratações.
Crédito como motor do desenvolvimento
Mesmo antes de uma redução oficial da Selic, o Banco do Nordeste já iniciou medidas para estimular a economia. Segundo o superintendente estadual da instituição em Minas Gerais, Wesley Maciel, a taxa do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) foi reduzida em quase 1% a partir de janeiro de 2026.
“Mesmo sem a Selic ter caído ainda, já existe essa expectativa no mercado. Por isso, o Conselho Monetário Nacional reduziu a taxa do FNE, principalmente para micro e pequenas empresas, justamente para reaquecer a economia e oferecer melhores condições aos empreendedores”, explica.
De acordo com ele, embora a redução beneficie todos os portes, o impacto é maior para os pequenos negócios. “As micro e pequenas empresas têm o caixa mais apertado e margens menores. Essa diferença de taxa faz muito mais sentido para elas.”
Wesley destaca que o Banco do Nordeste responde por cerca de 60% a 70% de todo o crédito de longo prazo injetado na economia, por meio do FNE. “Esse já é o dinheiro mais barato do Brasil e foi reduzido agora em janeiro, com expectativa de novas reduções, caso a Selic realmente caia.”
Segundo o superintendente, juros menores estimulam novos investimentos. “Isso aquece o interesse dos empreendedores em investir, expandir negócios e até abrir novas empresas.”
O banco financia desde a implantação de empreendimentos até compra de máquinas, equipamentos, reformas e aquisição de pontos comerciais. “Atuamos no comércio, indústria e serviços, sempre com taxas justas, prazos adequados e carência compatível.”
Apesar disso, a procura por crédito ainda não aumentou de forma significativa. “A redução aconteceu agora no início de janeiro e ainda não foi sentida por todos os empreendedores. Acreditamos que, com o tempo, muitos bons projetos vão sair da gaveta.”
Wesley também explica que juros menores reduzem o risco de inadimplência. “Quando a taxa é muito alta, o empreendedor toma um crédito que não suporta pagar. Com juros mais baixos, a inadimplência tende a cair, o que beneficia todo o sistema financeiro.”
Ele reforça a importância do planejamento. “É fundamental ter um bom plano de negócios, com cenários positivo, intermediário e pessimista. Mesmo no pior cenário, é preciso saber se a empresa consegue pagar todas as despesas.”
O superintendente também destaca a necessidade de capacitação e organização. “Gostamos quando o empreendedor chega treinado, muitos cursos são oferecidos pelo Sebrae. E é essencial estar com a documentação em dia, boa contabilidade e sem restrições.”
Outro ponto citado é a atenção às mudanças do mercado. “A inteligência artificial e o e-commerce estão transformando o consumo. O empreendedor precisa estar atento às novas demandas.”
Ele lembra ainda que o banco atende tanto empreendedores formais quanto informais. “O Crediamigo colocou mais de R$ 800 milhões na nossa região em 2025, atendendo desde vendedores ambulantes até produtores rurais.”
Comércio local ainda sente cautela
Apesar do cenário nacional mais otimista, o comércio de Montes Claros ainda sente os reflexos da desaceleração econômica. A avaliação é do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Ernandes Ferreira.
“Nós observamos, sim, uma leve queda da inflação, mas entendemos que isso ocorreu muito mais em razão da retração do consumo. Esse cenário é consequência direta da alta taxa de juros, que tem impactado tanto as famílias quanto as empresas, hoje bastante endividadas.”
Segundo ele, a inadimplência segue elevada. “Muitas pessoas não conseguem sair das dívidas. Com isso, o consumo diminui automaticamente.”
Ernanes destaca a expectativa em torno da reforma tributária. “Há esperança, mas até agora não houve redução significativa na carga de impostos.”
De acordo com o presidente da CDL, empresários estão buscando alternativas para enfrentar o momento de incerteza. “Existe expectativa, mas também preocupação com aumento de impostos.”
Ele avalia que 2025 foi um ano difícil. “A economia sofreu bastante. Precisamos de crescimento mais consistente.”
Para 2026, Ernanes acredita que o consumo de itens básicos deve se manter, mas sem grande expansão. “O setor de primeira necessidade deve crescer de forma tímida, já que as famílias estão com a renda muito comprometida. Por outro lado, será um ano com muitos feriados e também com a Copa do Mundo, o que pode favorecer setores ligados a esses dois nichos, que tendem a se sair muito bem.”
Segundo ele, a principal barreira é a incerteza. “Quem tem dinheiro sobrando segura, com medo de investir.”
Outro fator citado é a insegurança no emprego e o cenário eleitoral. “Tudo isso gera receio sobre o futuro.”
Ele lembra que o fim de 2025 teve algum aquecimento com Black Friday, Natal e Carnaval. “Agora as pessoas estão mais cautelosas.”
Sobre o otimismo do Sebrae, Ernane pondera. “Inflação baixa é positiva, mas ainda temos juros altos e renda comprometida. O consumidor compra só o essencial.”
Mesmo assim, ele mantém esperança. “Acredito que o pequeno empresário consegue se manter. A expectativa é de crescimento entre 2% e 3% nas vendas até o fim do ano. Para o pequeno negócio, 2026 tende a ser um bom ano.”
*Com informações do Sebrae Minas