Pequi ganha versões criativas na Festa Nacional do Pequi e reafirma identidade geraizeira

Venda do Fred durante a 3ª Edição do Concurso de Melhor roedor de Pequi do mundo - Foto: Laura Maria/O TEMPO

Mais que um ingrediente, fruto amarelo de sabor intenso é parte da cultura e da memória de quem vive o cerrado

 

Quando o assunto é pequi, geralmente a discussão se resume entre amá-lo ou odiá-lo. Acontece que, para o povo “geraizeiro” – como são chamados mineiros que habitam o cerrado e o Norte do Estado –, o fruto amarelo representa bem mais que sabor e aroma intensos. Ele carrega identidade, sustento, geração de renda e orgulho.

Nascido de forma espontânea nas terras da região, o pequi simboliza ainda uma gastronomia genuinamente mineira, que respeita o tempo da natureza e valoriza o que vem da terra. Portanto, mais do que uma questão de paladar, o “ouro do Cerrado” é um símbolo de pertencimento para quem vive em qualquer um dos quatro cantos das Gerais.

Eventos como a 32ª Festa Nacional do Pequi, realizada na última semana em Montes Claros, no Norte de Minas, servem para celebrar este e outros frutos do cerrado. Castanha de baru, murici, buriti, macaúba e jatobá também ganharam destaque nas criações de 40 empreendedores locais, que apresentaram comidas e bebidas preparadas com ingredientes típicos.

Para a festa, eles foram incentivados a elaborar pratos mais complexos e ousados que o tradicional arroz com pequi. Nas barraquinhas, multiplicavam-se risoto, crepe, sanduíche, cerveja, croquete, panceta, baião, picolé, sorvete, churros… todos produzidos ou acompanhados de ingredientes que o cerrado oferece.

No mercado gastronômico há 14 anos, Maria Fonseca Coelho levou para o evento pratos de seus dois estabelecimentos em Montes Claros, o Bar do Thom e o bufê La Maison. Do primeiro, saíram delícias como o crepe gerazeiro, feito com frango desfiado, queijo minas, pequi e molho de tamarindo apimentado.

Já a estrela do bufê foi o sanduíche de costela, com molho de coquinho azedo, que cresce nas palmeiras do cerrado. De ambas as barracas, o público pôde apreciar um drink feito com umbu e picolé de umbu.

“Mudei muito a minha visão com a festa, porque, anteriormente, não aplicava nos meus pratos os ingredientes típicos daqui. O que quero agora é colocar em prática a valorização da nossa cultura e dos itens do cerrado”, explica.

É de Maria também a criação do sorvete gerazeiro. Do doce, só o nome. A receita é feita com casquinha recheada com pernil temperado com pimenta-de-macaco, acompanhada de coquinho azedo e finalizada com castanha de pequi.

Os clássicos também não ficaram de fora da festa. Idealizadora do projeto Ôh Pote, Michelle Farah elaborou risoto de carne de sol com pequi, servido cremoso e fumegante, que conquistou o público pelo equilíbrio entre tradição e inovação.

Na mesma barraca, dividiam espaço diferentes potes com arroz arbóreo, temperos e ingredientes desidratados – proposta prática que permite ao cliente finalizar o preparo em casa.

Atualmente, Michelle desenvolve, em parceria com uma cooperativa, um projeto para desidratar o pequi, o que possibilitará criar novas versões da receita italiana com o toque característico do cerrado mineiro. “A ideia é facilitar, mas sem perder o sabor de um bom risoto. Queremos levar o gosto e o aroma do cerrado para mais mesas, de forma prática e acessível”, afirma.

Outra releitura de um prato clássico foi o estrogonofe de carne de sol com pequi, criado pela chef e consultora de alimentos Érika Oliveira, do Solar dos Sertões. Ao colocar na panela os dois ingredientes emblemáticos do Norte de Minas, a chef conseguiu uma combinação cremosa e de sabor marcante, acompanhada de arroz branco e batata palha.

O prato faz parte do cardápio desde a inauguração do restaurante, localizado em um belo casarão no centro da cidade. “Esse prato é uma forma mais cremosa e aromática de unir o pequi à carne de sol, duas grandes paixões da região. A gente quis mostrar toda essa diversidade e o afeto que existe na nossa culinária”, explica. “Todos os nossos pratos vêm da agricultura familiar. Isso traz um sentimento muito grande de pertencimento, porque o que chega à mesa vem das mãos de quem planta, colhe e cuida da terra”, diz Érika.

Pequi para refrescar

Com um pote de sorvete de pequi embaixo do braço, o empresário Luciano Magalhães peregrinava de mesa em mesa da Festa Nacional do Pequi oferecendo uma colher da sobremesa a um público curioso para descobrir o sabor diferentão.

A avaliação foi positiva. Ao longo da festa, o estande do Gosto do Cerrado ficou cheio de clientes que queriam provar também os sorvetes de castanha de baru, manga rosa, caju, panã, capim santo… Há 17 anos, Magalhães transforma frutos típicos em combinações inusitadas e já criou mais de 200 receitas, entre elas, opções à base de água, leite e zero lactose.

“Sempre quis fazer um produto que cuidasse das pessoas, algo que eu mesmo tivesse orgulho de oferecer”, diz. O empresário mantém parceria com produtores locais, de quem compra diretamente as frutas usadas na fabricação dos sorvetes. “É um ciclo que gera renda e preserva a cultura. Eu compro a fruta, despolpo, armazeno, faço o sorvete e vendo. Depois, esse dinheiro volta para quem planta, colhe e cuida da terra”, explica.

E engana-se quem pensa que pequi serve apenas para pratos doces ou salgados. Nas mãos da mestre cervejeira Tereza Brant, o pequi virou base de um dos chopes da Mut Cervejaria Artesanal. “Estamos no mercado há cinco anos e sempre em busca de novos desafios, de criar estilos diferentes. Aí surgiu a ideia de fazer uma cerveja com o fruto do nosso cerrado”, conta.

A proposta, porém, não foi simples de executar. O alto teor de óleo do pequi interferia na carbonatação da bebida, o que dificultava alcançar o equilíbrio ideal entre aroma, sabor e textura. “Foi uma receita difícil de acertar. Mas conseguimos chegar a uma mediação que manteve a qualidade da cerveja e o sabor característico do fruto”, comemora. O resultado é uma cerveja artesanal frutada, com leve amargor e um “fundinho” de pequi.

Fonte: Jornal O Tempo

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