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NANA é um daqueles animes que parecem simples no início, mas acabam te deixando com um vazio difícil de explicar. Lançado em meados dos anos 2000, ele vai muito além da história de duas jovens tentando recomeçar a vida em Tóquio. É um retrato cru, bonito e, ao mesmo tempo, doloroso sobre amadurecer, errar, se apaixonar e lidar com a dura realidade da vida adulta.

Criado por Ai Yazawa, NANA carrega tudo o que a autora faz de melhor: personagens complexos, estética marcante e uma sensibilidade única pra falar de emoções femininas. Como Yazawa veio do mundo da moda, isso aparece em cada detalhe. As roupas, os cabelos, a maquiagem — tudo comunica algo. As personagens literalmente vestem o que sentem. O cotidiano vira um desfile de sentimentos, e a dor ganha uma certa elegância, mesmo quando está em ruínas.

Mas o anime vai muito além da beleza visual. Ele fala sobre solidão, sonhos e frustrações de um jeito muito verdadeiro. Mostra como é difícil equilibrar a vontade de correr atrás de um sonho com as pressões financeiras, amorosas e emocionais que vêm junto com a vida adulta. E, revisitando a obra hoje, dá pra perceber o quanto alguns comportamentos retratados — principalmente nas relações amorosas — soam tóxicos. Na época, certos temas ainda eram pouco discutidos, então muitas dessas atitudes podiam parecer “românticas” ou apenas parte da narrativa. Hoje, a gente enxerga com outros olhos. Mas isso não diminui o valor da obra — pelo contrário, mostra o quanto NANA foi ousado ao colocar esses assuntos em pauta antes de virarem tema de debate.

 

Foto: Divulgação

As protagonistas, Nana Osaki e Nana Komatsu, são dois extremos que se completam. A Osaki é força, independência e dor; a Komatsu, carência, doçura e ilusão. As duas erram, se machucam e se apoiam, e é impossível não se enxergar um pouco em cada uma. Yazawa não cria heroínas perfeitas — ela cria mulheres reais, cheias de contradições, tentando entender quem são.

A estética do anime é um espetáculo à parte. A Osaki, com seu visual punk e olhar melancólico, parece carregar o peso do mundo nos ombros. Já a Komatsu tem aquele estilo mais leve, romântico, quase ingênuo. Essa oposição é simbólica: enquanto uma se protege com a aparência forte, a outra se desarma na esperança do amor. Tudo em NANA tem um significado — até o figurino conta uma história.

E não dá pra falar de NANA sem mencionar a trilha sonora. As músicas das bandas Black Stones e Trapnest são quase personagens. Elas traduzem emoções que as falas não conseguem — músicas sobre amor, perda e vazio, que soam tão reais que a gente esquece que são de um anime. É impossível ouvir e não sentir que aquelas letras nasceram das cicatrizes das próprias personagens.

 

Foto: Divulgação

No fim, o que faz NANA ser tão especial é a honestidade emocional. Ai Yazawa não tenta suavizar a dor. Ela mostra o amor como ele realmente é: bonito, mas também confuso, frágil e, às vezes, destrutivo. E mesmo que hoje a gente reconheça certos comportamentos como abusivos, a intenção nunca foi romantizá-los — e sim expor o quanto a vida adulta pode ser caótica quando a gente ainda está tentando se entender.

Mesmo sem um final fechado — reflexo da pausa do mangá e, talvez, da própria incerteza da vida —, NANA continua atual. A cada novo público que o descobre, ele ganha novos significados. Quem assistiu na adolescência enxerga uma coisa; quem revê anos depois, enxerga outra. E talvez esse seja o maior mérito da obra: crescer junto com quem a assiste.

NANA é, acima de tudo, sobre sonhar, se decepcionar e seguir em frente. Sobre entender que amadurecer dói, mas que fingir que não sente dói ainda mais. É uma história que continua viva porque fala de algo que todo mundo, em algum momento, já sentiu — o medo de perder quem a gente ama e, principalmente, de se perder de si mesmo.

 

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