Tecnologia da Unimontes revoluciona cultivo de macaúba e impulsiona biocombustíveis no Norte de Minas

Equipe do Laboratório de Reprodução Vegetal (Lar) da Unimontes . Foto: Júlia Rodrigues / Fapemig

Pesquisa apoiada pela Fapemig acelera a germinação da palmeira nativa do Cerrado e abre caminho para produção sustentável de combustíveis renováveis

 

Uma tecnologia desenvolvida pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) tem potencializado o uso da macaúba — palmeira nativa do Cerrado e reconhecida como uma das espécies mais oleaginosas do mundo — e ampliado suas possibilidades como fonte de biocombustíveis. O avanço é fruto de mais de 15 anos de pesquisas conduzidas no Laboratório de Reprodução Vegetal da instituição, com apoio decisivo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

O trabalho é coordenado pelo professor e pesquisador Leonardo Monteiro Ribeiro, com colaboração da professora Hellen Mazzottini dos Santos, reunindo projetos que também envolvem o estudo de outras palmeiras do Norte de Minas, como o buriti, o coquinho azedo e o babaçu.

“São vários projetos, uma parte financiada com recursos públicos, principalmente pela Fapemig, mas também pelo CNPq, e com parceria da Acelen Renováveis (Selen). A pesquisa com a macaúba e com as outras palmeiras é importante porque nossa região tem limitações climáticas conhecidas e a agricultura com espécies convencionais é muito restrita”, explica Ribeiro.

A macaúba se destaca pela elevada produtividade de óleo e pela rusticidade. Além disso, pode ser plantada em sistemas agroflorestais ou consorciada com gado e outras culturas, tornando-se uma alternativa sustentável para áreas degradadas.

“É uma espécie já adaptada, ocorre naturalmente aqui, as comunidades tradicionais conhecem e utilizam, e resiste à seca. É a espécie conhecida que mais produz óleo”, afirma o pesquisador.

Uma das principais descobertas da equipe foi superar a dormência natural das sementes — mecanismo que retarda a germinação como estratégia de sobrevivência. No ambiente natural, apenas 5% a 10% das sementes germinam em até dois anos. Com a tecnologia desenvolvida na Unimontes, é possível atingir taxas de 90% em apenas 15 dias.

“Aceleramos o processo e tornamos viável a produção de mudas em larga escala”, destaca Ribeiro. “A Fapemig é imprescindível nesse processo, apoiando equipamentos, materiais, reagentes e bolsas. Temos um débito e uma gratidão enorme à fundação”.

Atualmente, a equipe envolve 24 alunos em diferentes níveis acadêmicos e já planeja novos registros tecnológicos. “Sempre que encontramos resultados, surgem novas perguntas”, avalia. O próximo passo, segundo ele, é ampliar o portfólio de inovação em parceria com a iniciativa privada.

Potencial econômico e regional

Segundo Ribeiro, a demanda crescente por combustíveis renováveis torna a pesquisa ainda mais estratégica. Ele lembra que estimativas mostram cerca de 50 milhões de hectares de pastagens degradadas no Centro do Brasil — áreas aptas à expansão da cadeia produtiva da macaúba. “É uma solução viável, produtiva, versátil e alinhada à necessidade global de ampliar o uso de óleos vegetais e biocombustíveis”, diz.

O secretário executivo de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Bruno Araújo, destaca que o projeto demonstra como o conhecimento científico pode gerar impacto real na economia regional.

“O papel da Unimontes é fundamental para o desenvolvimento tecnológico da região. Quando falamos de tecnologia, pesquisa e inovação que impactam o mundo inteiro, a universidade se torna essencial também para o desenvolvimento social, econômico e sustentável”, afirma.

Ele ressalta que a pesquisa não apenas valorizou um recurso natural já explorado por comunidades locais, como também atraiu grandes investimentos. Um dos exemplos é a parceria com a Acelen Renováveis, que já ultrapassa R$ 300 milhões e pode alcançar R$ 3 bilhões em plantios e unidades de beneficiamento.

“Eles conseguiram reduzir o tempo de germinação da macaúba de dois anos para duas semanas. Isso representa um avanço enorme, já que a espécie é uma excelente fonte para produção de bioquerosene de aviação”, destacou o secretário.

Araújo afirma que o estado seguirá expandindo investimentos na ciência e infraestrutura das universidades mineiras. “Estamos muito empolgados e otimistas com o que está por vir. Além da inovação, vemos nesse setor uma grande oportunidade de geração de empregos qualificados e fortalecimento do ecossistema produtivo do Norte de Minas”, conclui.

Uma tecnologia desenvolvida na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) tem impulsionado o uso da macaúba, palmeira nativa do Cerrado, e ampliado seu potencial como fonte de biocombustível. Foto: Júlia Rodrigues / Fapemig. 

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