Minas não tem mar? Conheça praias que levam investimento, turismo e diversão para cidades mineiras

Foto: Alex de Jesus / O TEMPO

Alternativas ao litoral brasileiro, espaços promovem turismo, geram negócios e ajudam a preservar o meio ambiente

 

“Nossa cidade fica bem mais viva por causa da praia”. O relato, para qualquer desavisado, soaria como o de um morador do litoral brasileiro. Mas é de Carol Faria, de 27 anos, moradora de Lagoa da Prata, a cerca de 200 km de Belo Horizonte. A cidade abriga uma das chamadas “praias de Minas”, onde a diferença está só no “tempero” da água. Em vez de ser salgada, como no oceano, a versão mineira é doce. Tirando isso, o resto é idêntico ao presenciado em outros estados: os espaços oferecem areia, quiosques, água de coco e comidas típicas. Além de Lagoa da Prata, São Romão, Capitólio, Pirapora, São Francisco, Januária, Manga, Almenara, Boa Esperança e Três Marias também têm áreas de lazer às margens de rios e lagoas, onde é possível descansar com os pés na areia sem enfrentar a maresia.

Apesar de estar a 650 metros do nível do mar, a Praia Municipal de Lagoa da Prata se assemelha aos típicos pontos turísticos do litoral brasileiro. Pais brincam com os filhos na areia, idosos fazem caminhadas matinais, casais passeiam e tomam água de coco. Entre moradores e turistas, a praia é o principal meio de lazer na cidade.

Para Carol Faria, mãe do pequeno Bernardo, de 2 anos, o local é propício para as crianças brincarem e para quem quer se refrescar. “Acho perfeito. Sempre trago meu filho para brincar. Considero o local muito seguro e agradável. Aos finais de semana sempre fica cheio de famílias por aqui. Geralmente, não costumo entrar para nadar, mas o Bernardo entra com o pai dele. Eles até costumam pescar utilizando um caiaque”, contou a arquiteta.

Cerca de 660 quilômetros separam Lagoa da Prata de Januária, no Norte de Minas. O que une as duas cidades é o mesmo símbolo que inspira parte do turismo mineiro: o Rio São Francisco. É ele que, em Januária, dá origem à praia local. Durante a seca, o rio recua e revela uma faixa de areia, cenário de uma temporada de 100 dias, de julho a outubro. Na orla, barracas de palha e madeira dão o tom da paisagem característica de qualquer destino litorâneo. “Eu não troco por nenhuma outra praia de água salgada”, afirma a empresária Evelyn Leal, de 30 anos, dona da Barraca do Nem, empreendimento herdado do pai, pescador da região que morreu em 2023. “Assumi o legado dele. A gente, como januarense, sente muito orgulho. É um lugar para descansar, desacelerar e recarregar as energias”, conta.

Januária recebe turistas de várias partes do mundo, impulsionada pelo reconhecimento do cânion do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu como patrimônio mundial da Unesco. “Recentemente, japoneses passaram pela praia. Alguns estrangeiros vêm com guias. Em outros casos, a gente usa aplicativos de tradução. O importante é que conseguimos compartilhar histórias”, conta a empresária Evelyn.

Praias de Minas movimentam a economia

Além de serem opções de lazer, as praias também movimentam a economia. “É nosso principal cartão-postal”, define a secretária de Cultura e Turismo de Lagoa da Prata, Laiana Cardoso. Segundo ela, nos últimos cinco anos foram investidos cerca de R$ 5 milhões no complexo turístico da praia, formado pela praça de eventos, a rua de lazer, o centro esportivo e áreas culturais adjacentes. “Também são feitas manutenções continuadas de cerca de R$ 500 mil por ano, incluídas dentro do planejamento orçamentário da Secretaria de Turismo”, explicou Laiana Cardoso.

A Praia Municipal de Lagoa da Prata é um bem protegido e tombado pelo município. Conforme o prefeito Di Gianne Professor (Republicanos), durante sua gestão foi feita a atualização do Plano de Manejo, que regulamenta as atividades e ações realizadas nas praias.

Uma das grandes apostas do município é investir em espaços para prática de esportes na orla da praia, destaca o prefeito. “Criamos quadras de areia, revitalizamos as de peteca e de vôlei e implantamos uma grande academia ao ar livre. Melhoramos o entorno e construímos uma rua de lazer ao lado. Por isso, a cidade está sendo visitada o ano inteiro”, explica.

Com os investimentos na orla, surgiu também espaço para novos negócios. Foi nesse cenário que o Deck Praia se instalou há pouco mais de um ano, apostando em um cardápio inspirado em pratos típicos das regiões litorâneas, como petiscos variados e empanados de camarão. “É aquela sensação de estar no Nordeste, mesmo morando no interior de Minas Gerais”, brinca o proprietário Maurício Júnior, 35 anos.

Se a trajetória do bar ainda é recente, a relação do empresário com o espaço é antiga. “A Praia de Lagoa da Prata é um símbolo da nossa cidade, um lugar que guarda memórias de infância, família e amigos. Sempre sonhei em oferecer um espaço que valorizasse essa paisagem e fortalecesse a nossa cultura local”, afirma.

Em São Romão, no Norte de Minas, que virou notícia nacional por ser a cidade mais quente do Brasil por vários dias em 2023 — chegando a quase 43°C — uma faixa de areia banhada pelo São Francisco é refresco para moradores. O espaço é repleto de quiosques e conta com um letreiro da cidade. O saneamento contribui para o uso seguro das águas.

O prefeito Allan do Sax (MDB) diz que o município tem promovido melhorias de estrutura e campanhas para atrair turistas. “Investimos para preparar a praia com quiosques e deixar o lugar mais atrativo, com lugar para as pessoas tirarem fotos, se refrescarem e curtirem. Tem gente de dentro da cidade, turistas e comerciantes. Tudo isso aquece nossa economia. O resto é a natureza mesmo”, explicou.

Educação ambiental ajuda a preservar os encantos das praias

O convívio com a beleza natural que envolve as praias mineiras ajuda as pessoas a valorizarem o patrimônio ambiental, analisa a bióloga e professora do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Fernanda Raggi.

Editoria de arte / O TEMPO

“Trilhas, placas informativas, interações e atividades ao ar livre ampliam essa experiência, ajudando os visitantes a compreender a biodiversidade, os processos naturais e a fragilidade desses ecossistemas, transformando o lazer em aprendizado e conservação. O ecoturismo surge como protagonista nesse cenário, sensibilizando pela educação ambiental ao permitir que caminhadas, passeios de caiaque e observação de aves se tornem experiências significativas. E ainda proporcionam diversão, mas também ensinam sobre conservação, sustentabilidade e respeito à natureza”, ressalta.

De acordo com a especialista, em Minas Gerais, rios, represas e praias de água doce vêm ganhando destaque como espaços de lazer, aprendizado e identidade cultural. “Embora o estado não tenha litoral, moradores e visitantes associam esses locais às praias brasileiras, criando uma conexão emocional que transforma simples dias de sol em experiências memoráveis”, diz.

Fernanda reitera que é nesses espaços que os mineiros constroem uma identidade própria e do lugar, adaptando elementos das praias do litoral à realidade das águas doces. “É a aproximação de mineiros e turistas da natureza que permite a criação de memórias afetivas que consolidam a apropriação cultural das praias de água doce, reforçam o pertencimento e vínculo entre pessoas e o ambiente. Mesmo sem litoral, Minas Gerais demonstra que é possível criar experiências únicas de contato com a natureza, onde a percepção, a interpretação e o ecoturismo se consolidam para transformar praias de água doce em patrimônios sociais, culturais, emocionais e ambientais, reforçando o vínculo entre o homem e o ambiente que o cerca”, pontua a bióloga.

Foto: Alex de Jesus / O TEMPO

Para que os encantos das praias de Minas continuem prevalecendo, o investimento em educação ambiental tem sido uma medida importante. A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) conta com ações nesse sentido, como educação ambiental e sustentável nas escolas. Além disso, também atua na preservação do meio ambiente.

Em Capitólio, no Sul do estado, a companhia oferece análises laboratoriais das águas da “praia” durante eventos balneários para a segurança dos usuários — o sistema de esgotamento sanitário é operado pelo próprio município. Também na cidade, a empresa desenvolve o Pró-Mananciais, programa de proteção e recuperação de microbacias hidrográficas também presente em Almenara, Januária, São Francisco e Três Marias.

“A Copasa parte do princípio de que o turismo tem como pré-requisito para seu pleno exercício o acesso à água tratada e aos serviços de coleta e tratamento de esgoto. Em razão disso, no que compete à Copasa, ou seja, oferecer o serviço de saneamento básico aos municípios em que detém concessão, a implantação do sistema de esgotamento sanitário — coletar e tratar adequadamente o esgoto da população — é um importante fator para garantir a qualidade da água para os banhistas. Tal infraestrutura elimina o lançamento do esgoto in natura nos mananciais, tornando a água desses locais própria para a prática de lazer, esportes náuticos, pesca, entre outras atividades de turismo”, destaca a companhia.

As ações do Pró-Mananciais, segundo a empresa, incluem educação ambiental e sustentável nas escolas; diagnósticos de campo para detectar a necessidade da realização de ações de proteção à natureza nos municípios; adequação de estradas rurais; construção de bolsões (bacias escavadas na terra para contenção de água da chuva); terraceamento em curvas de nível (elevações de terra executadas ao longo dos terrenos); cercamento de áreas de preservação permanente; plantio de mudas; implantação de rede de monitoramento quali-quantitativo (para acompanhar a qualidade e quantidade de água dos mananciais) e instalação de sistemas agroflorestais (esquema que possibilita a coexistência entre culturas agronômicas e plantas que integram a floresta).

Em Lagoa da Prata, o monitoramento da qualidade da água é realizado pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Conforme a secretária de Cultura e Turismo de Lagoa da Prata, Laiana Cardoso, as amostragens são geralmente coletadas em quatro pontos distintos, sendo ordenados como: plataforma, área de banho, montante e jusante. “Os padrões físico-químicos e bacteriológicos classificam-se como próprios às atividades de recreação e contato primário conforme estabelecido na resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) nº 274, de 29 de novembro de 2000”, completa.

Conheça algumas das principais “praias” de Minas Gerais

  • Praia de Capitólio

Conhecida como Prainha de Capitólio, no Sul de Minas, a Praia Artificial Domingos Gonçalves Machado tem água cristalina com temperatura agradável. Oferece opções de esportes aquáticos como caiaque e stand-up paddle.

  • Praia de Pirapora

A Praia do Areião, em Pirapora, no Norte de Minas Gerais, geralmente atrai mais turistas após as chuvas de fim de ano. É bastante conhecida e visitada por pessoas de várias regiões do estado.

  • Praia de Lagoa da Prata

Tem um grande espaço com areia, lugares com sombras e aparelhos de ginástica para quem gosta de fazer exercícios. Diversas pessoas aproveitam para fazer caminhadas no local.

  • Praia de Januária

A “praia” é formada entre os meses de julho e outubro. Conta com toda uma estrutura, com barracas de petiscos e bebidas. Há, ainda, quadras de areia para prática de esportes e área de brinquedos.

  • Praia de São Romão

A Praia de São Romão fica em uma das cidades mais quentes de Minas Gerais. O local foi “improvisado” no Rio São Francisco e é um refresco para os moradores, além de um atrativo para os turistas.

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