Em coletiva de imprensa, em Montes Claros, o delegado William Araújo apresentou detalhes sobre a prisão de uma mulher, 59 anos, suspeita de envenenar as próprias netas, em São Francisco, no Norte de Minas. Foto: Léo Queiroz
A Polícia Civil de Minas Gerais segue investigando a morte de uma criança de 9 anos, em São Francisco, ocorrida na sexta-feira (19), após o consumo de um bolo supostamente envenenado. A principal suspeita é a avó de 59 anos, da vítima, que está presa preventivamente. O caso também envolve uma neta sobrevivente de 11 anos, que apresentou contradições em depoimentos e revelou detalhes que reforçaram a linha de investigação.
Em coletiva de imprensa, em Montes Claros, nesta segunda-feira (22), o delegado Flávio Cavalcante, expôs que as apurações começaram após a notificação do hospital de que uma criança havia dado entrada já sem vida, apresentando espuma na boca e secreção excessiva, o que levantou a suspeita de envenenamento. “A equipe de investigadores esteve no local para coletar provas, junto com a perícia, e levantar as duas hipóteses: morte natural ou por envenenamento”, explicou.
O bolo consumido pelas crianças foi identificado como a fonte do veneno, um produto conhecido como chumbinho. “A avó era a única presente no momento em que as crianças comeram o bolo. Ela passou o dia com elas e foi a responsável pelo preparo”, disse o delegado, acrescentando que ainda há a possibilidade de participação de terceiros, já que foram encontradas contradições nos depoimentos e há dúvidas sobre a aquisição do veneno.
Em depoimento, a avó afirmou ter comido o bolo junto com as netas, mas a criança sobrevivente relatou que apenas ela e a irmã consumiram o alimento. “A prisão aconteceu na última sexta-feira e foi tranquila. A investigada parecia já esperar a medida e não resistiu”, relatou o delegado William Fernandes Araújo, responsável pela Delegacia Especializada de Proteção à Vida da Regional de Januária.
Ele destacou que o comportamento da avó diante da situação chamou a atenção. “A própria sobrevivente contou que foi ela quem alertou a avó de que a irmã estava morta. A avó estava no banho e, ao ver a neta em agonia, limitou-se a massagear a barriga da criança, em vez de socorrê-la imediatamente. Isso nos causou estranheza e reforçou a suspeita sobre sua conduta.”
Outro ponto investigado é a possível indução do pai para que a filha alterasse seu depoimento. “O pai, que não é suspeito, teria orientado a sobrevivente a dizer que todos comeram o bolo, o que não corresponde à realidade. O depoimento da menina deixa claro que apenas ela e a irmã consumiram o alimento envenenado”, explicou Araújo.
A investigação também apura a relação da madrasta das crianças no caso. “Havia conflitos entre a mãe e a madrasta por questões pessoais e financeiras. Além disso, a madrasta tinha proximidade com a avó e prestava serviços na casa. No dia anterior à morte, ela esteve no local e teve acesso à cozinha. A sobrevivente relatou sentir medo da madrasta, mas ainda não conseguimos determinar se esse receio surgiu antes ou depois do crime”, afirmou o delegado.
Quanto aos alimentos levados pelo tio das crianças, a polícia esclareceu que foram entregues posteriormente e não apresentaram contaminação. “Foram analisados pães de queijo e um bolo industrializado, mas o veneno foi detectado apenas no bolo de frigideira preparado pela avó”, confirmou.
O inquérito policial deve ser concluído em até 30 dias, podendo haver prorrogação. A avó pode responder por homicídio qualificado, cuja pena varia de 12 a 30 anos, além de tentativa de homicídio, já que a neta sobrevivente também foi vítima. “Estamos diante de um crime grave, com vítimas menores de 14 anos e com o uso de veneno. Caso as linhas de investigação se confirmem, a pena pode ser elevada, com duas condenações possíveis, uma pelo homicídio consumado e outra pela tentativa”, finalizou Araújo.
Vítima falecida

A neta falecida tinha 9 anos. Foto: Redes sociais