Cavernas do Peruaçu abrem janela de oportunidade para o turismo no Norte de MG

Foto: Alex de Jesus / O Tempo

Reconhecido como patrimônio mundial da Unesco, cânion do parque deve receber aumento de 33% no número de visitantes em 2025

 

Foram décadas de pouco incentivo turístico. O Norte de Minas Gerais, região rica em serras, cavernas e histórias, foi mantido à margem dos investimentos que consolidaram destinos em outras partes do Estado. O turismo, que poderia ter revelado cedo a grandiosidade de seus biomas e culturas, permaneceu distante. Agora, esse cenário começa a mudar. Há dois meses, em 13 de julho, o cânion do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu foi reconhecido como Patrimônio Mundial Natural da Unesco, abrindo uma janela histórica de oportunidades para o sertão mineiro mostrar suas belezas.

O título é inédito para Minas Gerais no quesito natureza. Até então, o Estado ostentava apenas reconhecimentos culturais, como a cidade de Ouro Preto, na região Central, o Centro Histórico de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e o conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte. “O Peruaçu é um tesouro escondido no semiárido mineiro, que agora está começando a ser desvendado”, afirma a gestora do parque, Dayanne Sirqueira. “É como se estivéssemos escondidos e, de repente, os holofotes se voltassem para cá.”

A luz para o aquecimento do turismo no Norte de Minas chega após quase um século de mudanças no papel da região dentro do mapa brasileiro. Durante o período colonial e boa parte do século XIX, o rio São Francisco fez do território uma verdadeira porta de entrada. Era pelas águas do Velho Chico que circulavam pessoas, mercadorias e influências culturais, ligando as margens mineiras ao litoral nordestino e ao restante do país. Essa posição estratégica, no entanto, perdeu força com a chegada das ferrovias e, mais tarde, das rodovias, que passaram a dominar a logística nacional.

Assim, o que antes foi um corredor de integração nacional tornou-se, aos poucos, uma rota esquecida. Com o reconhecimento do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e o fortalecimento de políticas de valorização cultural e ambiental, o Norte de Minas reacende sua vocação de se conectar novamente ao Brasil e ao mundo pelo turismo sustentável e pela preservação de suas riquezas naturais e culturais, analisa o professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Thiago Neves.

“Historicamente, o Norte de Minas foi marginalizado em relação a regiões como o Sul e a Central, mais próximas de Belo Horizonte e industrializadas. Já o Norte permaneceu associado a uma economia de subsistência, à pecuária extensiva e a condições ambientais adversas, como as longas estiagens. A concentração das políticas públicas nas áreas mais ricas acentuou essa desigualdade. O turismo surge como oportunidade para reduzir esse distanciamento”, analisa.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu tem uma área de 56 mil hectares e está entre três cidades: Januária, Itacarambi e São João das Missões. Ele abriga um conjunto de cavernas de grande porte, paredões rochosos, formações calcárias e sítios arqueológicos com pinturas rupestres de até 12 mil anos. O prefeito de Januária, Maurício Almeida (Podemos), define o reconhecimento como “divisor de águas” para o desenvolvimento econômico e social da região. “Os olhos do mundo se voltam para a região”, destaca.

Reconhecimento do parque

O reconhecimento do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu como Patrimônio Mundial Natural da Unesco ocorreu após um hiato de quase 30 anos. A primeira menção internacional à área foi em 1998, quando ela entrou na lista indicativa da Unesco, ainda antes da criação oficial do parque. No ano seguinte, em 1999, o Peruaçu foi instituído com o objetivo de preservar seu patrimônio geológico, arqueológico e biológico.

Membro do Conselho Consultivo do parque, o espeleólogo Leonardo Giunco participou ativamente do processo de reconhecimento, que foi retomado em 2015. “Em uma conversa informal, durante um jantar, retomamos a ideia e passamos a mobilizar prefeitos e lideranças locais para organizar a estrutura necessária”, lembra. A candidatura estava prevista para avançar em 2021, logo após o reconhecimento dos Lençóis Maranhenses, mas a pandemia de Covid-19 atrapalhou o cronograma.

Em fevereiro de 2024, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o ICMBio elaboraram e apresentaram o dossiê de candidatura à Unesco, com base nos critérios VII (beleza natural excepcional) e VIII (importância geológica e processos da Terra). “O parque conseguiria se encaixar em oito de dez critérios, mas optamos por destacar esses dois. São cavernas, florestas e formações que não têm paralelo em nenhuma outra parte do mundo”, afirma o espeleólogo. Ele ressalta que, no futuro, o Peruaçu ainda pode pleitear também o reconhecimento cultural, transformando-se em um patrimônio misto — categoria que, no Brasil, só Paraty e Ilha Grande possuem.

Visitas ao parque devem crescer 33% em 2025

Em 2025, a procura por visitas ao Parque Nacional Cavernas do Peruaçu deve crescer 33%. A projeção é de que 20 mil pessoas visitem o parque ao longo de 2025, frente a 14.600 visitas em 2024. O parque tem capacidade para receber até 120 mil pessoas anualmente. Algumas atrações possuem limitação específica. A Gruta do Janelão, por exemplo, principal destino do parque, tem capacidade para 60 pessoas por dia.

Conforme a gestora do parque, Dayanne Sirqueira, em meio ao aumento da procura, a solução passa por pensar em novos atrativos, respeitando os limites da unidade de conservação. “Ainda temos tempo até atingir o limite, mas a ideia é aumentar a capacidade abrindo novos atrativos, e não superlotando os já existentes. O objetivo é que o impacto seja mínimo, garantindo que daqui a dez anos os visitantes tenham a mesma experiência de hoje. Preservar é o critério mais importante”, destacou.

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