Recentemente eu, uma psicóloga que está acostumada a ouvir, acolher e ajudar pessoas que muitas vezes estou vendo pela primeira vez, que não sabem nada sobre mim e que eu estou conhecendo suas histórias de vida; me deparei com um dilema: “ Acho que não estou conseguindo comunicar aos outros o que estou sentindo em minha vida pessoal” e angústia era tamanha, que quando eu colocava em palavras, me perdia e parava no meio. É curioso pensar nisso, já que minha profissão exige justamente ajudar as pessoas a organizarem seus pensamentos e sentimentos. E faço isso com segurança, porque tenho técnica e experiência. Mas, quando se trata de nós mesmos, as coisas nunca são tão simples. Sei, na prática, que expressar vulnerabilidade é um desafio — e essa experiência só reforçou minha empatia por quem está nesse lugar. Quando um paciente me diz: “Você não sabe como é difícil para mim estar aqui hoje”, minha resposta costuma ser: “Eu sei exatamente como se sente.” E não é da boca para fora. Eu realmente sei. Ser vulnerável é desconfortável, mas necessário. Por isso, procurei a única pessoa que entende minha mente melhor do que eu mesma: minha melhor amiga. (Claro que faço meu acompanhamento, como todo profissional, mas há algo único em uma amizade de infância.) Há uma conexão especial entre aqueles que acompanharam nossa jornada desde cedo, como se coração e mente estivessem divididos em dois. Além disso, ao refletir sobre essa experiência, percebo como a amizade é um espaço de aprendizado contínuo. Aprendemos a respeitar as diferenças, a lidar com conflitos de maneira saudável e a fortalecer nossa capacidade de resiliência emocional. A amizade nos ensina a sermos mais humanos, a desenvolvermos um olhar mais compreensivo para o outro e para nós mesmos. A partir da perspectiva construtivista de Piaget, o desenvolvimento dos valores morais dentro da amizade ocorre de forma progressiva, conforme a interação social possibilita a construção de regras compartilhadas. Nas relações de amizade, aprendemos a respeitar limites, exercitar a reciprocidade e compreender a importância do senso de justiça, fortalecendo assim nossa autonomia moral e ética ao longo da vida.
Em 2019, Lana Del Rey lançou uma canção maravilhosa, “Did You Know That There’s a Tunnel Under Ocean Blvd”. Apesar do nome longo, a música fala sobre o medo de ser esquecida pelos amigos e pelas pessoas que amou. Ela menciona que gostaria de ter um amigo que acredita nela incondicionalmente, até mais do que ela mesma, e nos lembra de que, às vezes, tudo o que precisamos é de um amigo verdadeiro. Um amigo que vê o que temos de especial — tanto nos momentos de alegria quanto, principalmente, na tristeza.
Depois que encontrei minha melhor amiga e começamos a conversar, tudo aquilo que antes me fazia tropeçar nas palavras fluiu de forma tão natural que parecia que, com um simples olhar, ela já sabia exatamente o que eu sentia. Eu era um livro aberto, e minhas cicatrizes emocionais, mapas geográficos onde ela encontrava cada trecho da minha história. Lembro-me de como nossa relação foi se moldando ao longo do tempo. Com mais de 20 anos de amizade, atingimos uma harmonia e conexão perfeitas. Foi, sem dúvida, um dos meus primeiros e mais profundos exercícios de empatia e compaixão pelo outro. Amigos nos lembram de quem somos quando nos perdemos, nos acolhe quando não conseguimos nos expressar e, muitas vezes, enxergam em nós forças que nem sabíamos que existiam. No fim das contas, por mais que o autoconhecimento seja um caminho individual, ninguém deveria precisar trilhá-lo sozinho. Em tempos de tamanha ênfase nos problemas de interação, em que crescem as investigações sobre bullying, assédio moral, fobia social, solidão, entre outros problemas de interação, ainda são escassas as discussões sobre os aspectos positivos concernentes à interação humana, como é o caso da amizade e dos valores éticos, sociais, afetivos e morais nela envolvidos. O bullying, em particular, se apresenta como um reflexo da dificuldade em construir relações baseadas no respeito e na empatia. A falta de conexões saudáveis pode levar à marginalização e ao sofrimento emocional, reforçando padrões de exclusão e violência. Por isso, é essencial incentivar, desde a infância, o cultivo de amizades verdadeiras, onde valores como respeito, solidariedade e compreensão sejam fortalecidos. Quando crianças e adolescentes aprendem a valorizar e nutrir relações saudáveis, criam uma base emocional mais segura para a vida adulta, tornando-se indivíduos mais empáticos e preparados para lidar com a diversidade do outro. Em um mundo que, muitas vezes, destaca a competitividade e o individualismo, resgatar o papel essencial da amizade como um pilar do desenvolvimento humano é um caminho necessário para uma sociedade mais acolhedora e justa.