Foto: Divulgação.

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As telas são viciantes, principalmente devido ao prazer ligado ao movimento, mas também existe uma questão da sociabilidade

Quando escrevi o texto anterior falando sobre vício, achei que iria esgotar esse assunto, mas parece que hoje existe uma infinidade de pessoas viciadas nas mais diversas coisas; isso é possível porque todas essas atividades, ativam o sistema de recompensa do cérebro. é aquela mãe que não sai do celular, aquele primo que passa horas no tik tok apenas vendo segundos de vídeo e já indo para o próximo, aquela criança que almoça com o tablet muito perto do rosto; sem contar o documentário sobre consumismo que vi na netflix, mostrando como estamos poluindo nosso planeta, porque estamos viciados em fazer compras por aplicativo e como esses aplicativos são programados para nos fazer perder horas nele.

É bizarro pensar que convivemos com coisas que são feitas para nos tornar dependentes e o que isso faz com nossa cabeça a longo prazo, a maioria das crianças que chegam ao psicólogo e o psiquiatra, ouvem sempre a mesma coisa, “nada de telas”, a verdade é que o uso excessivo de telas está ligado a enxaquecas, insônia, ansiedade generalizada e ao longo prazo prejudica e muito nossa memória e atenção; nunca foi tão difícil para o cérebro reter informações e ter momentos de descanso, não é atoa que a ansiedade está ligada ao modo de vida acelerado e muita preocupação, o que é intensificado por tanto estímulo. 

As telas são viciantes, principalmente devido ao prazer ligado ao movimento, mas também existe uma questão da sociabilidade, recentemente me assustei com uma reportagem da BBC, onde dissertou sobre idosos viciados em redes sociais, a nomofobia se caracteriza pelo medo de ficar sem celular, que pode deixar uma pessoa tão nervosa que ela pode suar demais ou ter taquicardia. A matéria destaca os pontos que deixam os idosos mais vulneráveis e muitos deles tem haver com isolamento, solidão, exclusão de espaços sociais, radicalização política e acreditar em tudo que vê. A questão é que tratamos isso com naturalidade, como um vício silencioso.

O livro “nação dopamina” da psiquiatra Anna Lembke; a autora exemplifica com a própria história de vício, como esses comportamentos estão ligados a nossa evitação do que é desconfortável. Hoje nós temos tantas opções de fuga do sofrimento, que perdemos a capacidade de lidar com nossos pensamentos, sentimentos e tolerar o mínimo de desconforto, sem contar que existe uma cobrança para estarmos sempre bem e mostrar nossa alegria e sucesso nas redes sociais, se tornou comum maquiar nossos sentimentos negativos; procuramos imediatamente nos entreter, não é incomum um paciente ter todo tipo de sintoma físico e não conseguir nomear o que estava sentindo ou o que estava pensando.

Foto: Anna Lembke Psiquiatra.
Foto: Anna Lembke Psiquiatra.

O vício ou nesse caso o comportamento evitativo, passa a ser uma recompensa e um consolo, é preciso uma tomada de consciência de que aquilo que nos faz bem, pode estar sendo usado de uma forma que vai nos prejudicar, pode mudar nossos comportamentos e nos isolar do mundo real.  A autora utiliza o exemplo de uma balança que de um lado tem sofrimento e do outro o prazer, mostrando que da mesma forma que nosso cérebro se adapta ao vício, levando a balança ao sofrimento, podemos reverter isso com o auto comprometendo e colocando limites em como usamos o que a tecnologia tem para nos oferecer. 

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