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Muitos profissionais da saúde mental ainda subestimam o potencial viciante do contato frequente com conteúdo íntimo na internet. Em alguns contextos, esse comportamento é até visto como natural ou mesmo saudável. O problema é que essa banalização pode aprofundar quadros de dependência e favorecer o surgimento de transtornos graves, que vão muito além da esfera individual e podem afetar diretamente quem está por perto.
Hoje, já se sabe que disfunções como impotência sexual, baixa autoestima e dificuldades em relacionamentos afetivos especialmente entre jovens estão fortemente associadas ao uso excessivo de pornografia. O vício pode se instalar silenciosamente, muitas vezes sem que a própria pessoa perceba o impacto real desse comportamento.
Assim como outros vícios, o desejo sexual também é regulado por dopamina, o neurotransmissor responsável pelo nosso sistema de recompensa. É a mesma dopamina que te dá vontade de comer um bolo de chocolate, se acabar no queijo ou tomar aquela cervejinha no fim de semana. Quando o cérebro é exposto a estímulos ilimitados de prazer, como os encontrados online, ele se adapta para receber doses cada vez maiores e é nesse desequilíbrio que o vício nasce.
DROGAS NÃO SÃO AS ÚNICAS COISAS VICIANTES, Vivemos cercados por estímulos capazes de ativar o mesmo circuito de recompensa — e o excesso de dopamina acaba provocando um “rebote” emocional. Em pouco tempo, a pessoa começa a experimentar apatia, indiferença ao prazer e, em muitos casos, depressão.
Nesse cenário, a internet tem um papel crucial. Ela se tornou o espaço ideal para o prazer imediato, oferecendo falsas promessas de sexo fácil e dinheiro rápido. E o cérebro primitivo, orientado pela sobrevivência, acredita que isso é real.
Os dois vícios compartilham mecanismos semelhantes: impulsividade, gratificação imediata e busca por alívio emocional. Não por acaso, muitas plataformas de apostas patrocinam sites adultos. Em janeiro de 2025, inclusive, um dos maiores sites de bets do Brasil ultrapassou o número de acessos do principal site adulto do país.
Ambos os ambientes pornografia e jogos de azar são espaços de baixa reflexão e alta emoção. São acessados, na maioria das vezes, em momentos de solidão, ansiedade, tédio ou frustração. A mente já está vulnerável, e é nesse exato ponto que as estratégias de marketing das casas de aposta atuam: oferecendo um novo pico de dopamina, como se fosse a próxima solução.
Segundo reportagem do jornal O Globo, as apostas esportivas representam 68% dos patrocínios masters dos principais clubes do Campeonato Brasileiro. E em 2025, uma agência de acompanhantes chegou a patrocinar campeonatos com um caminhão temático estacionado em local público, acessível até para menores de idade.Os sintomas do Jogo Patológico incluem a necessidade constante de jogar, a incapacidade de controlar o impulso de jogar, a priorização do jogo em detrimento de outras atividades importantes, a irritabilidade e a ansiedade quando não se está jogando, além disso, a disponibilidade de jogos de azar e a pressão social para participar destas atividades também podem influenciar no surgimento do Jogo Patológico.
O diagnóstico do Jogo Patológico é feito por profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras, através da avaliação dos sintomas apresentados e do impacto do jogo na sua vida. Para quem já percebe sinais de compulsão, como dificuldade de parar, prejuízos na vida pessoal, ou sentimentos constantes de culpa e frustração, buscar ajuda profissional não é exagero. Psicólogos e psiquiatras especializados podem oferecer estratégias reais de enfrentamento, tratamento e recuperação. Além disso, o apoio emocional e social é um pilar essencial para quem enfrenta esses vícios. Pessoas vulneráveis não precisam apenas de proibições, mas de acolhimento, escuta e alternativas saudáveis de conexão e prazer.
Infelizmente, enquanto muitos lutam silenciosamente contra esses transtornos, celebridades seguem promovendo casas de apostas e plataformas de conteúdo hipersexualizado como se fossem inofensivas ou até desejáveis. Essas figuras públicas ocupam um lugar de influência enorme, especialmente entre os jovens e, ao ignorarem os riscos reais por trás dessas indústrias, tornam-se parte ativa na normalização e expansão desses comportamentos compulsivos. E a responsabilidade é coletiva: de quem consome, de quem lucra, e de quem escolhe não falar sobre o assunto.